25 junho 2009

PERSISTINDO NO CAMINHO DA GRAÇA


“Despedida a sinagoga, muitos dos judeus e dos prosélitos piedosos seguiram Paulo e Barnabé, e estes, falando-lhes, os persuadiam a perseverar na graça de Deus.” Atos 13.43

A palavra Graça no grego é Caris, e significa “favor imerecido”. Nós, cristãos, somos chamados a viver segundo este favor de Deus dado a nós, pois é segundo este que não somos destruídos pela Ira Divina. Mas como é difícil, não é mesmo? Afinal, há outro ser criado o qual busca tanto ter justiça em si mesmo? Aí, se erramos nos afastamos de Deus, pois achamos que Ele não nos ama mais; e, se permanecemos em pé, também somos afastados, pois a soberba do nosso coração nos justifica diante de nós mesmo, e para este não há espaço para justiça de Cristo agir com poder restaurador segundo a Graça de Deus Pai. A Palavra, contudo, nos chama a permanecer na Graça, pois ela é:

A forma como Cristo se revela a nós, e a forma como nEle vivemos (João 1.14): Jesus se manifestou cheio da Graça de Deus. Nele, as pessoas com as quais conviveu no tempo de seu ministério terreno sempre experimentaram do amor e do favor Divinos. Ele curou, Ele libertou, ele ensinou o caminho de volta para Deus, ou seja, em ações ou palavras, o Senhor Jesus Cristo manifestou graça (Lucas 4.22; João 1.15-17; Romanos 1.5). Como não conseguíamos nos achegar a Deus, pois os nossos pecados só nos afastavam cada vez mais de Sua presença (Isaías 59.2), o fato dEle ter-se encarnado e andado entre nós trazendo perdão, reconciliação, e vida eterna, deve levar-nos, em resposta a este favor imerecido, para esta Graça inefável; para uma vida de gratidão e entrega; e à pratica da Sua vontade revelada a nós. E esta afirmação leva-nos a compreender que a Graça de Deus é:

A forma pela qual recebemos os Dons que nos fazem frutificar no Senhor (Romanos 1.5): Paulo tinha esta consciência. Ele sabia que toda a sua capacidade e autoridade vinham da Graça de Deus, e esta estava em Jesus Cristo. Paulo tinha plena convicção de que não merecia pregar o Evangelho; não merecia o poder de Deus nem sua autoridade; não merecia o perdão dos seus pecados e a vida eterna, e afirma: tudo é pela Graça de Deus em Cristo Jesus! Paulo aprendeu que sozinho, segundo a sabedoria humana, seu serviço junto aos gentios seria infrutífero, mas que, pela Graça, seria poderoso e frutífero para a glória de Deus em Cristo Jesus (2ª. Coríntios 1.12). Por isto, ele exorta aos de Gálatas a voltarem para o viver pela Graça (Gálatas 5. 1-12). Paulo aprendeu no Senhor que a Graça era a chave para uma vida com Deus, cheia de Sua presença, do Seu poder, e dos Dons que nos fazem frutificar (2ª. Coríntios 12.9), pois, é ela:


A Forma pela qual somos justificados em Jesus Cristo (Romanos 3.24): nossas obras, por melhores que sejam diante de Deus, não têm força de justificação, e desta forma precisamos entender que nossa salvação não pode vir de nós mesmos! O espiritismo e outras religiões no Brasil e no mundo tentam impor a idéia de que podemos chegar à redenção por nós mesmos. A realidade, porém, nos mostra que não. Não importa quantas gerações tenhamos pela frente, não alcançaremos a redenção por nós mesmos. Pelo contrário! Apesar de toda a evolução do conhecimento e da qualidade de vida, caminhamos para a destruição das coisas criadas. Basta-nos olhar para as guerras por motivos econômicos, visando a exploração e nunca libertação e a preservação da vida; para os desmatamentos e poluição do meio ambiente, os quais destroem a Camada de Ozônio, e trazem o aquecimento global. A restauração, portanto, vem do Senhor por meio do Seu Cordeiro que tira o pecado do mundo, e tão somente por ele (João 1.29; Romanos 3.24). Como Paulo já nos disse: “pela graça sois salvos, mediante a fé, e isto não vem de vós, é dom de Deus (Efésios 2.8). Nada do que recebemos de Deus é por méritos próprios, e a Salvação não seria diferente (Tito 3.7).

Assim sendo, entendamos: é preciso continuar andando no caminho da Graça. Não rejeite o “favor imerecido” que o Senhor nos traz em Jesus Cristo! Se assim o fizermos, vamos viver melhor a vida cristã, com alegria, disposição, e frutificando para a Sua glória! Termino fazendo a cada um de nós o mesmo convite que o autor de Hebreus fez aos de seu tempo: “Por isto tenhamos confiança e cheguemos perto do trono divino, onde está a graça de Deus. Ali receberemos misericórdia e encontraremos graça sempre que precisarmos de ajuda.” Hebreus 4.16

Cleber B. Gouveia, pr

01 junho 2009

A proposta do Evangelho do Reino de Deus


Evangelização não é o mero anuncio do Evangelho, não é o anuncio de um discurso; evangelização é uma proposta de vida. Ela, portanto, não é um discurso qualquer, mas é uma proposta absoluta de mudança de vida, a começar pelo fato de que a Evangelização é a proposta da possibilidade de viver dentro agora do ambiente divino conforme Deus quer! A Evangelização é o anuncio do jeito que se deve viver.


Evangelizar é, portanto, um processo radical, uma proposta radical, uma proposta definitiva. Não é um discurso ou convite para mudar de religião. Evangelizar é primeiramente uma proposta de ampliação da consciência onde primeiro se percebe que Deus existe e é a realidade do universo, subsistindo todas as outras realidades nEle. 


A pergunta que surge é? Qual o jeito certo de subsistir nEle? E uma vez que há um jeito certo de subsistir nEle, qual é o caminho? Como se consegue chegar lá? Como se consegue ser deste jeito? Como se consegue fazer isto? São perguntas que estão postas! Aí o Evangelho é a boa notícia a partir da perspectiva do Reino, pois o jeito certo de viver é segundo a justiça do Reino, e o caminho é Jesus Cristo.”

                                                                      

                                                                              Pr. Ariovaldo Ramos

Texto digitado a partir da primeira parte do sermão "O Evangelho do Reino" 

encontrado no site www.lifestream.com.br

13 maio 2009

A monogamia e o caminho dos pingüins

O caminho para o relacionamento conjugal é o da monogamia, não por determinação genética, mas porque fomos criados à imagem de Deus, que é, em si, uma unidade

Uma revista semanal publicou recentemente uma reportagem sobre como os fundamentalistas, através da aparente constatação da chamada “marcha dos pingüins”, que descreve o grande percurso que essas aves percorrem para acasalar-se, e, em grande parte, com os mesmos parceiros da marcha anterior, estão tentando demonstrar como a monogamia é o natural na dispensação divina da Criação. O comentarista da área de ciências dessa revista desancou os tais fundamentalistas, fazendo ver a ingenuidade e a simploriedade desse argumento antropomórfico, deixando claro que há outros fatos no comportamento dessa espécie que, por si só, desautorizam essa conclusão.

O comentarista da revista tem razão. É uma ingenuidade. Mesmo nas Escrituras, esse assunto passou por várias fases:

  • No momento da Criação, Deus ordenou a monogamia (Gn 3.24), e o relacionamento entre homem e mulher era de unidade. Dois seres, mas uma só carne. Duas vidas, mas um só caminho e uma só missão.
  • No evento da queda, Deus subordina a mulher ao homem, dizendo que ela seria governada por seu marido (Gn 3.16).
  • Depois disso, Deus desaparece da cena por sabe-se lá quanto tempo; quando reaparece, encontra a poligamia e, a rigor, não mexe nisso, embora ela signifique a exarcebação do governo do homem sobre a mulher.

  • Quando Jesus Cristo aparece, ele manda voltarmos para o início (Mt 19.8), para o momento da unidade, quando o relacionamento não estava baseado na autoridade, mas na unidade – e, portanto, na cumplicidade.

Alguém poderá dizer que não é assim, porque Paulo diz que a mulher deve ser submissa ao seu marido. Entretanto, o próprio Paulo diz que está falando da relação entre Cristo e a Igreja (Ef 5.32). Nós é que não queremos prestar a atenção nisso, acabando por fazer uma má exegese. Quanto ao relacionamento conjugal, Paulo diz que o homem deve amar a sua mulher como a si mesmo e a mulher deve respeitar ao seu marido (Ef 5.33).

Portanto, não há dúvida, o caminho escolhido por Deus para o relacionamento conjugal é o da monogamia. Mas não por causa de uma determinação genética, nem por causa de um imperativo moral, mas porque fomos criados à imagem e semelhança de Deus, que é, em si mesmo, uma unidade. Logo, não há como ser expressão desse Ser sem, de alguma maneira, participar da unidade que o caracteriza. Daí ser na unidade da monogamia, da família e da comunidade que manifestamos a imagem de Deus. Sim, porque os anjos têm as mesmas qualidades cognitivas e volitivas que nós, mas são tidos como criaturas à imagem de Deus.

E, para além do corpo, que não nos distingue como imago Dei, o que experimentamos de Deus, diferentemente dos anjos eleitos, é que, guardadas as devidas proporções, somos as únicas criaturas de Deus que experimentam a unidade que o distingue. A monogamia não é natural, mas litúrgica. A monogamia fundamentada na unidade. Qualquer outro tipo de relacionamento no casamento conspurca a imagem de Deus.


Ariovaldo Ramos

é filósofo e teólogo, além de diretor acadêmico da Faculdade Latino-americana de Teologia Integral, missionário da Sepal e presidente da Visão Mundial. É membro da equipe editorial da Edições Vida Nova.

13 abril 2009

Do “por quê?” celebrar a Ressurreição de Jesus Cristo

“Porque eu sei que o meu Redentor vive e por fim se levantará sobre a terra”. Jó 19:25

"– Por que é que vocês estão procurando entre os mortos quem está vivo? Ele não está aqui, mas foi ressuscitado". Lucas 24. 5b - 6

Eu gosto de comemorar a ressurreição. Ela é, afinal, um dos aspectos fundamentais da fé cristã. Sem ela, a morte de Jesus, o Cristo, seria mais uma dentre as mortes de vários grandes personagens da história humana, ou mais uma dentre a morte dos muitos “revolucionários” que conseguiram estimular mudanças nas estruturas do mundo. Por fim, sem ela, a nossa fé seria completamente em vão, sem sentido, vazia, efêmera, infrutífera, completamente tola!

A ressurreição, porém, nos diz algo mais, nos faz ir além das ações e reações humanas, pois nela está contida a ação e reação Divina contra o pecado e a morte, e a favor do ser humano criado segundo a Sua imagem e semelhança.

Por isto celebro a ressurreição e os convido a se juntarem comigo nesta grande festa de Deus da qual somos convidados! Pois, por meio dela não precisamos mais olhar mais para trás, ficar presos ao passado sem possibilidades outras. Pelo contrário, ela nos faz voltar os olhos para o alto, ver que o socorro dali já veio e a nós alcançou, e assim, podemos contemplar um futuro que antes não existia, e caminhar firmes para o encontro daquEle que vem para, não somente nos buscar, mas trazer novos céus e nova terra, e uma nova morada, eterna, na Jerusalém Celestial onde o Pai, o Filho e o Espírito reinam deste a eternidade.

É claro que apesar de termos tudo isto como herança, de conhecermos aquilo que por nossas vidas, e de muitos outros, fora feito pelo Pai em Cristo Jesus, precisamos compreender que tal obra não visa somente a pessoa do ser humano. Ela nos beneficia, alegra o coração, mas o fim de tal propósito é a restauração de todas as coisas ao estado inicial, e neste estado o nosso “eu” ressurreto em Cristo viver para a glória de Deus! E neste aspecto não olhamos somente para frente, alienados do agora, mas vivemos plenamente o presente, o hoje, o agora, para a Glória de Deus.

A ressurreição de Cristo venceu o pecado, destruiu a sua paga, a morte, e a mim e a você fez nova criatura para viver sempre no Gozo do Senhor, provando dos benefícios de uma vida de intimidade, levando-nos ao agrado de viver para glorificá-lo no hoje e sempre.

Por isto, amados e amadas, comemorem a Ressurreição do nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo! Como diz o cântico antigo “porque Ele vive, posso crer no amanhã, porque Ele temor não há”. Contudo, não parem nesta parte, e cantem também “mas eu bem sei, eu sei, que a minha vida está nas mãos do meu Jesus, que vivo está”, e viva para glória de Deus Pai, em Seu Filho, nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo, o qual vivo em, e entre nós, está!

Cleber B. Gouveia, pr.

07 abril 2009

Oração e comunhão


Fazemos apressadas e impacientes tentativas de orar, e, não vendo bons frutos, dizemos que a prática é inútil, e abandonamo-la. A oração é como a amizade. A amizade não se prova assim de relance, de passagem. Não se constrói com alguns segundos e nem se torna forte com encontros esporádicos e sem interesse pelo outro. A amizade é antes uma condição de vida –de vida constante e persistente– e os seus resultados se vão manifestando com o tempo. Assim é a oração: o seu resultado vai-se manifestando com a continuação da nossa íntima comunhão com Deus.

Eis a palavra chave na vida de oração: Comunhão! A grande dádiva que esperamos na oração é que Deus se dê a Si mesmo, em comunhão conosco. E o mais que Ele der será incidental e secundário. Separei pequenas pérolas sobre a oração, recolhidas nos últimos 9 anos, a fim de que possamos meditar e, quiçá, sermos motivados a procurar a Deus em oração.

A.C. Benson

“Oração não é uma repetição mecânica das formas verbais, porém uma forte e íntima afinidade do nosso coração com o Pai”

Sir Thomas Browne, famoso médico inglês:

“Já me resolvi a orar mais e orar sempre, a orar em todos os lugares onde o silêncio convida, em casa, no caminho, na rua e a não saber de nenhuma rua ou avenida nesta cidade que não possa testificar que não me esqueci de Deus?”

Irmão Lourenço:

“Oração é uma firme consciência da presença de Deus, e constante comunhão com Ele”.
“
Oração é a aspiração da nossa pobre alma sobrecarregada por seu eterno Pai, com ou sem palavras, sentimento este espontâneo”.

Agostinho de Hipona:

“Dá-me a tua própria pessoa, sem a qual, mesmo que me desses tudo o que fizestes, ainda não podia ser satisfeito o meu desejo”

Thomas à Kempis:

“É pouco e não satisfaz tudo o que pudesses doar, afora Tu mesmo”.

“Esta idéia da oração enquanto comunhão não é nem moderna nem antiga; é propriedade comum de todos os santos cristãos que penetraram o âmago da oração. As perplexidades se encontram nas franjas da oração; a oração na sua essência é tão simples e tão profunda como a amizade”.

Perceber a oração como comunhão com Deus nos faz perceber que às vezes temos orado muito mais que pensamos, mas também que devemos orar bem mais do que já oramos! O Apóstolo Paulo ao escrever aos tessalonicenses (I Ts. 5.17): “Orai sem cessar”, não falava de petição, mas de comunhão contínua.

Perceber oração como comunhão é perceber que o coração do Pai está aberto e você é bem vindo ali. Deus convida você a entrar no Seu coração. O coração do Senhor é a casa onde nos encontramos seguros, protegidos... Você é bem vindo ali. Então, ore!

“A oração genuína e total nada mais é do que amor” (Agostinho de Hipona)

Rev. Ézio Martins de Lima

23 março 2009

A alegria de estar na Casa do Senhor

Boa noite!

Hoje desejo postar um texto que muito edificou minha vida. O autor é o presbítero Nilton Alves, tesoureiro da IPI do P-Sul, em Ceilândia, Igreja da qual sou cooperador de Jesus Cristo no pastoreio. Espero muito que sua vida também seja motivada a desejar estar na casa do Senhor como o Salmista no Salmo 86.



A alegria de estar na Casa do Senhor

 Presb. Nilton Alves Rabelo

Irmãos desejo nesta pastoral levar a igreja a refletir sobre a importância de congregar, sobre a necessidade de ir à Casa do Senhor. Ir a igreja deve ser um motivo de muita alegria e não de obrigação. Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores(1 Tm 1:15). A salvação é algo pessoal. Cada um de nós é conclamado a arrepender-se e aceitar o Salvador. Porém, uma vez salvo, o crente não está destinado a trilhar seu caminho solitário. Talvez isso até fosse mais fácil em certo sentido, porém não é esse o propósito de Deus. Precisamos congregar, precisamos ir a igreja e ser auxílio um dos outros .

O Salmo 122:1 fala sobre o valor da Casa de Deus. O centro do culto não é mais uma única cidade, como estabelecia no Antigo Testamento, mas as muitas igrejas locais (Jo 4:21), assim podemos aprender deste salmo um grande respeito pelas coisas de Deus: adoração, revelação, unidade e justiça. Davi se regozijava porque a lei de Deus era a posse do povo de Israel, se regozijava porque Deus era a sua maior riqueza. Regozijava porque a igreja era a Casa de Culto em que Deus estava presente. Amados se o culto congregacional no Antigo Testamento era tão festivo e alegre; mais jubiloso, festivo e alegre deve ser o nosso culto, visto que o evangelho de Jesus foi plenamente revelado a todos nós.

Ser membro de um corpo é ser parte integrante de um organismo vivo. “Deus dispôs os membros, colocando cada um deles no corpo, como lhe aprouve” (1 Coríntios 12:18). Não se trata, portanto, de estabelecermos uma organização com estatutos e profissão de fé, nem de reiterarmos prescrições a serem seguidas, mas simplesmente de reunir-nos porque o Senhor e Seu Espírito nos juntaram, sendo Ele mesmo o elemento central:  “Porque, onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, ali estou no meio deles” (Mateus 18:20). Observemos que não é dito “onde se reunirem”, mas “onde estão reunidos”. 

Irmãos e irmãs, como igreja local precisamos ter a consciência de que precisamos congregar-nos e vir a ser auxílio e não empecilho. Infelizmente, muitas vezes nos assemelhamos à sociedade secular, onde os descontentes estão em constante disputas e rixas. Temos  contribuído para a manutenção da paz na igreja? Tiago acrescenta: Irmãos, não vos queixeis uns dos outros, para não serdes julgados” (Tg 5:9). As murmurações agitam, primeiro, nosso interior: nosso espírito opõe-se contra determinado irmão ou irmã, ou alguma atitude coletiva que foi tomada, e então, procuramos argumentos para nos assegurar que temos razão. As queixas mantidas em silêncio vão se acumulando até que, finalmente, são lançadas em rosto. Quanto empecilho uma atitude como essa pode suscitar numa igreja!

Em Hebreus 10:24-25, está escrito -  “Não deixemos de congregar-nos”. Essa exortação vem quase imediatamente após a menção da plena “ousadia” que temos para ‘‘entrar no santo dos santos” (v. 19 e 22). Trata-se de um privilégio desconhecido para o Israel de outrora, quando só os sacerdotes podiam entrar no santuário para realizar os serviços sagrados, e o sumo sacerdote, sozinho, uma vez ao ano, podia entrar no santuário interior (9:6-7,25).

Hoje, lavados e justificados, entramos no santo lugar na plena luz da face de Deus. Se podemos entrar e falar diretamente com Deus, de onde procede o costume, muito comum, de não visitarmos regularmente as reuniões?  De ficarmos em casa e não virmos à igreja?

A verdade é que podemos ter tanto de Cristo quanto quisermos. Podemos nos aprofundar n’Ele o quanto optarmos, vivendo plenamente segundo Sua palavra e direção.  Precisamos restaurar a paixão pelo o mover de Deus, restaurar a paixão pela casa de Deus. Precisamos olhar continuamente para Jesus. É impossível alguém olhar  para Jesus e não ficar apaixonado por Ele. Ef.5:14/ Heb.12:2/ II Cor.3:18. Precisamos viver e andar  perto de gente apaixonada por Deus.

Tenha alegria em vir a Casa do Senhor. Regozije-se em entrar na presença do Senhor. Permita meu irmão, minha irmã que Deus trabalhe de forma profunda, em seu coração e em sua vida e que Ele faça de você um vaso de honra, de testemunho, de poder e vida.

Irmãos que a nossa oração seja: Senhor quero sempre estar alegre por poder ir a tua igreja. Amém.

16 março 2009

VIVENDO PLENAMENTE A COMUNHÃO DOS SANTOS

“E perseveravam na doutrina dos apóstolos, e na comunhão, e no partir do pão, e nas orações.” Atos 2.42

Durante esta semana estive com algumas irmãs e irmãos de nossa comunidade. Além, é claro, de realizar visitas, ministrei a Ceia do Senhor, cantei, orei com eles, e mantivemos comunhão.  Como fui edificado, abençoados, alegrado nestes momentos. Sim, pois ao estar com mais pessoas diante da mesa servida pelo Senhor, ao orar com elas em unidade, e cantar louvores ao único Deus e Senhor, pude compartilhar com elas aquilo que nos é comum pela fé em Cristo Jesus: nossa vida cristã e todas as benção de Deus nEle! E isto é verdadeiramente enriquecedor!

E a Comunhão é isto! É estar juntos para partilhar aquilo que nos é comum – no sentido de partilha, de vivência e expectativa – como a Ceia do Senhor o é. É estar juntos para cantar coisas em comum, como a Graça, o amor, as misericórdias, e a bondade do Senhor; é estar juntos para orar por coisas comuns, como o pedir pelo livramento de dias maus, pelo pão de cada dia, pelo fortalecimento de nossos corações na esperança das últimas coisas; é estar juntos para render graças a Deus por coisas comuns a nós, como a gratidão pela nossa Salvação em Jesus Cristo.

Por isto, e desta forma, a comunhão é o momento onde somos renovados pela oração realizada em favor do outro, e por este em nosso favor. É o momento onde somos alimentados com a Palavra compartilhada, alegrados pelos cânticos entoados, e direcionados para um mundo sem Deus, cheios da Sua presença abençoadora e de Sua vida, na certeza de que há muitos como nós, conosco, andando no mesmo propósito.

Entendo ser necessário seguir o exemplo da Igreja de Atos e perseverar na comunhão, no partir do pão, nas orações. Para isto, nós, como Igreja, temos duas formas de viver esta realidade abençoadora: nas reuniões comunitárias, e nas visitas. As reuniões comunitárias acontecem duas, três vezes por semana, são rápidas – no máximo duas horas – e, por isto, precisamos aproveitá-las ao máximo, tendo consciência da importância da mesma para a vida comunitária e individual de cada cristão. Nela há a interação de uns para com os outros. Nas visitas, por sua vez, temos mais tempo disponível para o compartilhar de nossas vidas, e podemos ser mais íntimos, mais próximos, e por isto tal prática é super importante, pois por ela podemos dar continuidade no cuidar de uns para com os outros, iniciado nos cultos comunitários.

De qualquer forma, o que desejo compartilhar com cada irmão, com cada irmã na pastoral deste domingo é: perseverem em viver tal propósito de Deus para nossas vidas. A cruz de Cristo nos possibilita isto, pois as diferenças e inimizades já foram destruídas por ela, e faz de todos nós um só corpo, para viver uma só fé, uma só esperança, em um só Senhor (Efésios 2. 11 -22 e 4. 1-5). Assim sendo, não perca tempo, e mergulhe neste oceano de possibilidades chamado Comunhão dos Santos.

Cleber B. Gouveia, pr.

10 março 2009

ALGUMAS COISAS A RESPEITO DO SACERDOCIO REAL DE TODOS OS CRENTES

“Vós, porém, sois raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus, a fim de proclamardes as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz; (1 Pedro 2.9)

Estamos perto dos 500 anos de nascimento de João Calvino. Como todos sabem, este foi um dos grandes reformadores da Igreja, e como Presbiterianos somos herdeiros de seus ensinos e práticas. Hoje, quero falar um pouco sobre um dos ensinos de Calvino e demais reformadores da Igreja, e conseqüentemente da Reforma Protestante: o sacerdócio real e universal de todos os crentes.

Olhando para a Palavra de Deus encontramos nas palavras do apóstolo Pedro a base para o ensino do sacerdócio real e universal de todos os crentes, e analisando o ensino reformador compreendemos haver, quanto ao sacerdócio real, alguns direitos e outros deveres, alguns dos quais passo a expor a seguir:

Livre acesso a Deus: o sumo sacerdote era aquele que entrava nos santos dos santos. Entrava, porém, com uma corda nos pés, pois, se estivesse em pecado, morreria. Nós, porém, constituídos sacerdotes pelo Sumo Sacerdote Jesus Cristo (Hebreus 4.14), podemos entrar na presença de Deus sem necessidade de outro intercessor que não o Senhor (Efésios 2.18). Ou seja, não há necessidade de mais ninguém para que suas suplicas, suas orações, sua vida se apresente diante de Deus. Não há necessidade de cordas, pois o sangue que nos abre o caminho é o que nos purifica para não somente entrar, mas para ser o Santuário de Deus em Espírito (Efésios 2.21-22; Hebreus 9.14).

Capacidade para ler e compreender a Bíblia: todo sacerdote de Deus pode ler e interpretar a Bíblia, sem que haja proibições, sem barreiras. No tempo de Lutero e Calvino isto não era praticado. Pelo contrário! Era pecado ler a Bíblia. Com a Reforma todos os crentes puderam e ler e interpretar a Bíblia com a ajuda do Espírito Santo, e foi nos dado como herança tal prática devocional. Uma pena, porém, que em nossos dias isto tenha se tornado banal, e o povo “santo”esteja vivendo no pecado por falta de conhecimento (Salmo 119.11; Provérbios 29.18).

O evangelismo pessoal:  pois, se sou sacerdote real, apresento a Deus ao povo, e o povo a Deus. Ou seja, levo a revelação dos mistérios de Deus às pessoas, e as apresento diante de Deus. Em outras palavras sou responsável direto pelo evangelismo e discipulado das pessoas com as quais convivo. Não preciso e nem necessito esperar pela autorização do pastor, presbítero ou qualquer outro líder. Jesus, nosso Senhor já nos deu esta ordem, autoridade e capacitação (28.19-20 e Atos 2 e Atos 4).

Estes são alguns ensinos do legado deixado para nós pelos reformadores, dentre eles Calvino.  Espero poder apresentar outros durante este ano dos 500 anos de Calvino. Enquanto isto de contínuo oro e espero no Senhor  por uma nova Reforma em nossos dias, advinda pelo Seu Espírito, capaz de nos fazer conhecer e viver de forma eficaz o princípio e realidade dos sacerdócio universal de todos os crentes.

Cleber B. Gouveia, 

Pastor da IPI do P-Sul em Ceilândia, D.F., 

e Santa Rosa, em Santo Antônido do Descoberto, Go.

 


08 março 2009

Ser mulher


Tive dois impactos na minha vida em relação ao que é ser mulher. O primeiro se deu quando ainda morava na zona rural. Eu era pequena e já ouvia minha mãe dizer que menina não precisava ir à escola. Afinal, dizia ela, para quê aprender a ler e estudar se o papel da mulher resumia-se a ficar em casa cozinhando, lavando roupas e cuidando de crianças? Aquilo me marcou muito. Comecei a desconfiar que, pelo menos na ótica da minha mãe, era mais vantajoso ser homem. Mas, para minha felicidade, meu pai não pensava assim e decretou que seus filhos só sairiam da escola quando estivessem, ao menos, alfabetizados. Percebi, aliviada, que para ele meninos e meninas – e, por extensão, homens e mulheres – tinham o mesmo valor.

O segundo aconteceu muitos anos depois, na década de 1980. Já estava casada e com dois filhos, um menino e uma menina. Na época, os sermões em muitas igrejas giravam em torno da família e dos diversos papéis desempenhados no lar. Mas sempre que eu ouvia sobre as funções da mulher, sentia certo mal estar, cuja natureza não conseguia definir direito. Só percebia que era uma sensação de falta, mesmo tendo certeza de que, diante de Deus, a mulher é diferente do homem, mas não inferior.

O nobre, naqueles anos, era a mulher se identificar com a frase: “Sou esposa e mãe.” Eu não via nada de errado naquilo, afinal eu era casada e tinha filhos. Mas sentia falta de alguma coisa. Um dia, enquanto via minha filha de 10 anos brincando no gramado de casa, o nó se desfez. Olhei para ela e falei com meus botões: “E se ela não se casar? Ou se, mesmo casada, não gerar filhos?”

Naquela conversa entre eu e eu mesma, compreendi que realmente falta algo na identidade da mulher que vai além do estado civil e da capacidade biológica de gerar e criar filhos. Só que a sociedade está impregnada de mensagens desvalorizando e sugerindo que a mulher é inferior. Basta ver que a publicidade usa e abusa do corpo feminino e da sua sexualidade na divulgação de tudo quanto é produto. E muitas mulheres se submetem, muitas vezes inocentemente, a esta exploração sem se dar conta que estão cooperando com a humilhação, não apenas de si mesmas, mas de todo o gênero feminino. E o que dizer, então, das diversas situações degradantes a que as mulheres são submetidas em pleno século XXI?

Paul Tournier, psiquiatra suíço que muito influenciou os cristãos brasileiros, defendeu a idéia de que a mulher tem o sentido de pessoa muito mais apurado que os homens. Naturalmente, elas se inclinam mais para as pessoas, enquanto os homens, em sua maioria, se devotam mais às coisas. Ele compreendia que, se a mulher cumprisse sua missão, a civilização poderia ser curada de sua frieza e da indiferença com que trata os desprotegidos e indefesos. Na percepção dele, a mulher já provou do que é capaz, mas tem se submetido aos critérios masculinos, mesmo nos espaços por ela conquistados. Isto é, mostrou sua capacidade – mas deixou de lado a parte específica da sua identidade e passou a imitar o homem.

O valor da mulher é resgatado com o advento de Cristo. Deus se fez gente e dependeu de um útero para nascer neste mundo e de seios maternos que lhe dessem sustento. Em todo o ministério de Jesus, ele fez questão de aceitar e reconhecer o valor da participação da mulher. Ao longo de sua trajetória neste mundo, o Filho de Deus protagonizou vários episódios ao lado de mulheres. Ele curou uma mulher com hemorragia uterina, doença exclusiva do sexo feminino; ressuscitou uma menina; gastou tempo ensinando Maria de Betânia, que era solteira, mesmo que a lei judaica só permitisse o ensino para os homens; aceitou o presente e os gestos de gratidão da mulher tida por todos como prostituta; não julgou aquela que foi flagrada em adultério, e amorosamente ainda a convidou a uma mudança de vida; e não teve pudores em se revelar como Messias à samaritana do poço, uma mulher discriminada não apenas por sua origem, mas também porque já estava em seu sexto relacionamento conjugal.

Diante do exemplo de Jesus, podemos reconhecer e acreditar no valor intrínseco da mulher pelo que ela tem de singular e único. Pelo potencial específico e inigualável que se expressa através da profissão, das habilidades artísticas, da atividade religiosa, do voluntariado e do envolvimento político – e também pelo seu desempenho no próprio lar, como companheira do homem e como mãe. E, embora a identidade da mulher não dependa exclusivamente do casamento ou da geração de filhos, é claro que a parceria conjugal e a maternidade podem acrescentar e enriquecer suas experiências de vida e contribuir para sua maturidade. Contudo, o valor da mulher pode e deve ser cultivado e desenvolvido independentemente de sua condição, pois ela, como todo ser humano, tem significado em si mesma como ser criado à imagem e semelhança de Deus.

O relato bíblico da Criação mostra que o Senhor delegou ao homem e à mulher a tarefa de cultivar e dominar a terra. Eu acho que, no plano divino, todas as decisões e atitudes humanas devem ser tomadas levando em consideração a ótica masculina e a feminina. Os dois gêneros precisam caminhar juntos – e aprender mutuamente. Os homens precisam considerar e dar espaço para a contribuição da mulher; e ela precisa apenas ser mulher!



Esther Carrenho Casada, avó, teóloga e psicóloga clínica.
Texto publicado no sítio da Revista “Cristianismo Hoje”

04 março 2009

CLAMOR POR UM CAMINHAR SANTO!


“Bendito seja o Senhor, porque me ouviu as vozes súplices...” Salmo 28.6

Considerado como sendo um salmo escrito por Davi, o Salmo 28 é uma súplica a Deus por uma intervenção em seu favor. No verso 1 vemos Davi confessar sua busca por Deus: “a ti clamo, ó Senhor”, é ante a face de Deus expor seus temores e anseios. E qual é o motivo do clamor de Davi a Deus? A busca por socorro das garras dos ímpios, dos perversos, dos que falsamente proferem paz ao próximo, mas segundo a malícia dos seus corações, executam suas obras sem temor ao Senhor (v.v. 2-4). Davi, portanto, pede ao Senhor livramento dos falsos amigos, dos falsos conselheiros, dos falsos “bons homens”, pois sabia o fim de tais pessoas (versos 4 e 5).
Em nossos dias precisamos ter clamor semelhante ao do Rei Davi, pois, como há pessoas semelhantes às citadas por ele. Pessoas as quais inicialmente parecem ser boas companhias, falam palavras bonitas, de amor e cuidado para conosco, com propostas interessantes; são alegres, nos alegram, mas, cujas obras, porém, revelam com o tempo o verdadeiro intento de seus corações: a perversidade e a falta de temor e amor a Deus (versos 3 e 5).
E a perversidade e a malícia são caminhos enganosos, e perigosos. São caminhos os quais inicialmente podem trazer vantagens à pessoa que por eles caminha e fundamenta suas ações. Contudo, levam ao desastre, à inimizade, à vergonha, à morte, e morte eterna, pois, no fundo são caminhos pecaminosos, e a Palavra é clara: “a alma que pecar, esta morrerá” (Ez 12.20).

Davi nos avisa: os ímpios em seu caminhar não se “...atentam para os feitos do Senhor, nem para o que suas mãos fazem...” (v. 5); ou seja, não estão “nem aí” para a ação de Deus neste mundo, não se importam com Sua vontade, em viver segundo esta vontade. Assim sendo, um crente no Senhor Jesus Cristo não deve deter ou direcionar seus passos nos conselhos dos ímpios (Salmo 1). Paulo nos diz algo semelhante quando afirma não haver nenhuma comunhão entre luz e trevas (2 Cor 6.14). Por certo, se fizer o contrário, o crente será contaminado com suas palavras e seu proceder, bem como terão o mesmo fim (v.3).

Isto não significará, entretanto, se tornar inimigo, não poder ter amizades com não crentes, mas, sim, em saber que não se pode andar em comum acordo com seus conselhos, ou seja, não ser influenciado por sua forma de ver e viver a vida, mas sim influenciar com a forma de vida proposta pelo Evangelho do nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, segundo Suas Palavras que são espírito e vida, e esta abundante e eterna (João 6. 63-68 e João 10.10).

Assim sendo, proponho que sejamos sóbrios e vigilantes quanto à forma como nos relacionamos. Que vigiemos e oremos por um sondar de Deus em nossos corações, e, acima de tudo, clamemos por livramento dos conselhos e influência de pessoas perversas e maliciosas (lembra-se do final da oração do Pai nosso?). Que façamos sempre a oração final do Rei Davi: “Salva o teu povo, e abençoa a tua herança; apascenta-os e exalta-os para sempre” (v.9), em Cristo Jesus, amém!

Cleber B. Gouveia,pr.

26 fevereiro 2009

Não Quero Ser Apóstolo


Os pastores possuem um fino senso de humor. Muitas vezes, reúnem-se e contam casos folclóricos, descrevem tipos pitorescos e narram suas próprias gafes. Riem de si mesmos e procuram extravasar na gargalhada as tensões que pesam sobre os seus ombros. Ultimamente, fazem-se piadas dos títulos que os líderes estão conferindo a si próprios. É que está havendo uma certa, digamos, volúpia em pastores se promoverem a bispos e apóstolos. Numa reunião, diz a anedota, um perguntou ao outro: “Você já é apóstolo?” O outro teria respondido: “Não, e nem quero. Meu desejo agora é ser semideus. Apóstolo está virando arroz de festa, e meu ministério é tão especial que somente o título de semideus cabe a mim”. Um outro chiste que corre entre os pastores é que se no livro do Apocalipse o anjo da igreja é um pastor, logo, aquele que desenvolve um ministério apostólico seria um “arcanjo”.

Já decidi! Não quero ser apóstolo! O pouco que conheço sobre mim mesmo faz-me admitir, sem falsa humildade, que eu não teria condições espirituais de ser um deles. Além disso, não quero que minha ambição por sucesso ou prestígio, que é pecado, se transforme em choça.

O apostolado consta entre os cinco ministérios locais descritos pelo apóstolo Paulo em Efésios 4.11. Não há como negar que osapóstolos foram estabelecidos por Deus em primeiro lugar, antes dos profetas, mestres, operadores de milagres e curas, aqueles que prestam socorro, aqueles que governam e aqueles que falam variedades de línguas. Mas resigno-me contente à minha simples posição de pastor. Já que nem todos são apóstolos, nem todos são profetas, nem todos são mestres ou operadores de milagres, como consta em 1 Coríntios 12.29, parece não haver demérito em ser um mero obreiro.

Meus parcos conhecimentos do grego não me permitem grandes aventuras léxicas. Mas qualquer dicionário teológico serve para ajudar a entender o sentido neotestamentário do verbete “apóstolo”, ou “apostolado”. Vejamos o que registra a Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã:

O uso bíblico do termo “apóstolo” é quase inteiramente limitado ao NT, onde ocorre setenta e nove vezes; dez vezes nos evangelhos, vinte e oito em Atos, trinta e oito nas epístolas e três no Apocalipse. Nossa palavra em português é uma transliteração da palavra grega apostolos, que é derivada de apostellein, enviar. Embora várias palavras com o significado de enviar sejam usadas no NT, expressando idéias como despachar, soltar, ou mandar embora, apostellein enfatiza os elementos da comissão — a autoridade de quem envia e a responsabilidade diante deste. Portanto, a rigor, um apóstolo é alguém enviado numa missão específica, na qual age com plena autoridade em favor de quem o enviou, e que presta contas a este.

Jesus foi chamado de apóstolo em Hebreus 3.1. Ele falava os oráculos de Deus. Os doze discípulos mais próximos de Jesus também receberam esse título. Parece que o número de apóstolos era fixo, porque há um paralelismo com as doze tribos de Israel. Jesus se refere a apenas doze tronos na era vindoura (Mt 19.28; cf. Ap 21.14). Depois da queda de Judas, e para que se cumprisse uma profecia, ao que parece, a igreja sentiu-se obrigada, no primeiro capítulo de Atos, a preencher esse número. Mas, na história da igreja, não se tem conhecimento de esforços para selecionar novos apóstolos para suceder àqueles que morreram (At12.2). Com o passar do tempo, as exigências para que alguém se qualificasse ao apostolado já não poderiam se cumprir: É necessário, pois, que, dos homens que nos acompanharam todo o tempo que o Senhor Jesus andou entre nós, começando no batismo de João, até ao dia em que dentre nós foi levado às alturas, um destes se torne testemunha conosco da sua ressurreição (At 2.21, 22).

Portanto, alguns dos melhores exegetas do Novo Testamento concordam que as listas ministeriais de 1 Coríntios 12 e Efésios 4 referem-se exclusivamente aos primeiros, e não a novos apóstolos.

Há, entretanto, a peculiaridade do apostolado de Paulo. Uma exceção que confirma a regra. Na defesa de seu apostolado em 1 Coríntios 15.9, ele afirma que foi testemunha da ressurreição (viu o Senhor na estrada de Damasco), mas reconhece que era um abortivo (nascido fora de tempo): “Porque sou o menor dos apóstolos, que mesmo não sou digno de ser chamado apóstolo, pois persegui a igreja de Deus” (1 Co 15.10). O testemunho de mais de dois mil anos de história é que os apóstolos foram somente aqueles doze homens que andaram com Jesus e foram comissionados por Ele para serem as colunas da igreja, comunidade espiritual de Deus.

O que preocupa em relação aos apóstolos pós-modernos é ainda mais grave. Está ligado à nossa natureza, que cobiça o poder, que se encanta com títulos e que faz do sucesso uma filosofia ministerial. Tem acontecido uma corrida frenética nas igrejas para ver quem é o maior, quem está na vanguarda da revelação do Espírito Santo e quem ostenta a unção mais eficaz. Tanto que os que se afoitam ao título de apóstolo são os líderes de ministérios de grande visibilidade e que conseguem mobilizar grandes multidões. Possuem um perfil carismático, sabem lidar com massas e, infelizmente, são ricos.

Não quero ser um apóstolo porque não desejo a vanguarda da revelação. Desejo ser fiel ao leito principal do cristianismo histórico. Não quero uma nova revelação que tenha sido despercebida por Paulo, Pedro, Tiago ou Judas. Não quero ser apóstolo porque não quero me distanciar dos pastores simples, dos missionários sem glamour, das mulheres que oram nos círculos de oração e dos santos homens que me precederam e que não conheceram as tentações dos megaeventos, do culto espetáculo e da vanglória da fama. Não quero ser apóstolo porque não acho que precisemos de títulos para fazer a obra de Deus, especialmente quando eles nos conferem status. Aliás, estou disposto até mesmo a abrir mão de ser chamado pastor, se isso representar uma graduação, e não uma vocação ao serviço.

Não desdenho as pessoas. Apenas sinto um profundo pesar em perceber que a ambiência evangélica conspira para que homens de Deus sintam-se tão atraídos à ostentação de títulos, cargos e posições. Embriagados com a exuberância de suas próprias palavras, crentes que são especiais aceitam os aplausos que vêm dos homens e esquecem que não foi esse o espírito que norteou o ministério de Jesus de Nazaré.

Jesus nos ensinou a não cobiçar títulos e a não aceitar as lisonjas humanas. Quando um jovem rico o saudou com um “Bom Mestre”, rejeitou a interpelação: “Por que me chamas bom? Ninguém é bom senão um, que é Deus” (Mc 10.17, 18). A mãe de Tiago e João pediu um lugar especial para os seus filhos. Jesus aproveitou o mal-estar causado para ensinar:

Sabeis que os governadores dos povos os dominam e que os maiorais exercem autoridade sobre eles. Não é assim entre vós; pelo contrário, quem quiser tornar-se grande entre vós, será esse o que vos sirva; e quem quiser ser o primeiro entre vós será vosso servo; tal como o Filho do Homem, que não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate de muitos. (Mt 20.25-28.)

Os pastores estão se esquecendo do principal. Não fomos chamados para ter ministérios bem-sucedidos, mas para continuar o ministério de Jesus, que foi amigo dos pecadores e compassivo com os pobres, e identificou-se com as dores das viúvas e dos órfãos. Ser pastor não é acumular conquistas acadêmicas, não é conhecer políticos poderosos, não é ser um gerente de grandes empresas religiosas, não é pertencer aos altos escalões das hierarquias religiosas. Pastorear é conhecer e vivenciar a intimidade de Deus com integridade. Pastorear é caminhar ao lado da família que acaba de enterrar um filho prematuramente e que precisa experimentar o consolo do Espírito Santo. Pastorear é ser fiel a todo o conselho de Deus; é ensinar ao povo a meditar na Palavra de Deus. Ser pastor é amar os perdidos com o mesmo amor com que Deus os ama.

Pastores, não queiram ser apóstolos, mas busquem o secreto da oração. Não ambicionem ter megaigrejas, mas busquem ser achados despenseiros fiéis dos mistérios de Deus. Não se encantem com o brilho deste mundo, mas busquem ser apenas serviçais. Não alicercem seus ministérios sobre o ineditismo, mas busquem manejar bem a Palavra da verdade, aquela mesma que Timóteo ouviu de Paulo e que deveria transmitir a homens fiéis e idôneos, que por sua vez instruiriam a outros. Pastores, não permitam que os seus cultos se transformem em shows. Não alimentem a natureza terrena e pecaminosa das pessoas; preguem a mensagem do Calvário.

Santo Agostinho afirmou: “O orgulho transformou anjos em demônios”. Se quisermos nos parecer com Jesus, sigamos o conselho de Paulo aos filipenses: “Tende o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus, pois Ele subsistindo em forma de Deus, não julgou como usurpação o ser igual a Deus; antes, a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-se em semelhança de homens; e, reconhecido em figura humana, a si mesmo se humilhou, tornando-se obediente até à morte e morte de cruz” (Fp 2.5-8).

Ricardo Gondim, Pastor da Assembleia de Deus Betesda, em São Paulo (www.ricardogondim.com.br)