22 fevereiro 2007

A RELIGIÃO DA BANHEIRA QUENTE

Qual o símbolo que você acharia apropriado para representar a cultura ocidental moderna? Um hambúrguer? Um aparelho de som? Um carro? Um avião? Uma TV? Um computador? Minha escolha é a banheira quente. Por quê? (...)
Outro dia, eu fui um de toda uma turma que passou a maior parte de uma chuvosa tarde de sábado numa banheira quente. Meus estudantes tutelados, que formavam a turma, tinham me aconselhado a experimentá-la (....)
Enquanto me sentava lá, fazendo piadinhas e ajustando-me à emoção de ser envolvido por bolhas de todos os ângulos, ocorreu-me que a banheira quente é o símbolo perfeito do caminho moderno da religião. A experiência da banheira quente é deliciosa, relaxante, preguiçosa, despreocupante. De nenhum modo é exigente, seja intelectualmente ou não, e é muito, muito agradável, até o ponto de ser divertida (especialmente com um grupo de tutelados como o meu). Muitos hoje querem que o Cristianismo seja assim, e trabalham para isso. O último passo, é claro, seria tirar os assentos dos auditórios das igrejas e instalar banheiras quentes em seu lugar; então nunca haveria problemas de freqüência. Enquanto isso, muitas igrejas, muitos evangelistas e muitos religiosos eletrônicos já estão oferecendo ocasiões que são planejadas para nos levar a sentir que só perdem para uma banheira quente – isto é, são reuniões felizes e descuidadas, momentos verdadeiramente divertidos para todos (...)
Enquanto eu continuava na banheira quente, espreguiçando-me desinibidamente, vi por que a religião popular desse grupo cromado do qual eu estou falando ganhou tanto controle. A vida moderna nos pressiona. Somos estimulados até ficarmos aturdidos. Os relacionamentos são frágeis; os casamentos se rompem, famílias se separam; os negócios são uma corrida exaustiva sem fim, e aqueles que não estão no topo sentem-se como peças da máquina de outra pessoa. A automação e a tecnologia da computação tornaram a vida mais rápida e mais tensa, já que não temos mais que fazer os trabalhos rotineiros que consumiam muito tempo, e nos quais nossos avós costumavam relaxar suas mentes. Temos que correr muito mais rapidamente do que qualquer geração anterior, simplesmente para ficar onde estamos. Não é surpresa, então, que quando o homem ocidental moderno se volta para a religião (se ele se volta – muitos não o fazem), o que ele quer é um total relaxamento estimulante, ser a uma só vez confortado, sustentado e revigorado sem esforço: em poucas palavras, uma religião de banheira quente. Ele pede isso, e as pessoas se apressam em supri-la. O que a religião da banheira quente ilustra mais claramente é a lei da procura e oferta.
O que, então, devemos dizer sobre a religião da banheira quente? Certamente um ritmo de vida que inclua descanso é correto; o quarto mandamento mostra isso. Alternar trabalho árduo com tempos de divertimento também é certo (...). Desfrutar de nossos corpos enquanto podemos, em oposição a desprezá-los, já é parte da disciplina da gratidão para com nosso Criador. E exuberâncias desinibidas como bater palmas, dançar, gritar louvores e clamar na oração podem ser aprovadas também, desde que, através disso, não façamos os outros tropeçar. Sem estes fatores da banheira quente, como podemos chamá-los, nosso cristianismo seria menos piedoso e menos vivo, pois seria menos humano. Mas, se não houvesse mais em nosso cristianismo do que os fatores da banheira quente – isto é, se abraçássemos um hedonismo de relaxamento e sentimentos felizes, evitando tarefas difíceis, posições impopulares e relacionamentos exaustivos – perderíamos a centralização bíblica em Deus e a vida de carregar a cruz para a qual Jesus nos chama, e anunciaríamos ao mundo nada mais do que nossa própria decadência. Com a ajuda de Deus, contudo, não vamos concordar com esse pouco.

Rev. Dr. James Innell Packer
(Extraído do livro Religião Vida Mansa, Cultura Cristã, 1999, p.50-53)
J. I. Packer, nascido Gloucester, Inglaterra, em 22 de julho de 1926, é considerado um dos maiores teólogos Reformados (Calvinista) da atualidade.

16 fevereiro 2007

Minha Pública Profissão de fé (Parte 2)

Olá... Graça e Paz da parte daquele que era, que é, e que sempre será nosso Senhor e Salvador, Jesus, o Cristo de Deus.
Hoje quero abrir meu coração mais uma vez. Por isto o título de meu post. O que escrevo hoje trata-se de uma confissão de fé pessoal. Por isto, não os obrigo a concordar. Exponho nas palavras abaixo meu coração, sem medo, porém todos meus medos; sem receios, porém pensativo; e com grande alegria, pela liberdade que em Cristo há.
Apresento perguntas, afirmo pouquissimas coisas, mas, permito-me viver este momento, e o compartilho com você. Talvez esteja passando por algo parecido; talvez já o tenha vivido, e superado. Talvez não entenda nada, e até mesmo despreze como me sinto agora. Mas, mesmo assim, entendo que podemos nos ajudar mutuamente em amor. Deus nos abenções.
Publica profissão de fé (parte 2)
Qual o nosso objetivo na vida cristã? Qual a nossa consciência quando dizemos seguir a Cristo?

Sabe, nestes dias tenho pensado muito a respeito destas e outras perguntas como: "Por quê me privo de tantas coisas na vida (não vejo o pecado em muitas delas) por amor ao irmão que se escandalizaria se me visse gozá-las?
Por quê insisto em continuar no Caminho mesmo quando sou afligido, injuriado, acusado, perseguido e angustiado pelos que nele caminham comigo? E foram muitas vezes.
Por quê leio tantos livros que falam a respeito da vida cristã e seus segredos, promessas ou princípios, mesmo quando tenho certeza de que ao fim da leitura a realidade por eles apontada continuará tão distante quanto no inicio?
Por quê enveredo-me pelo caminho de idéias onde somente os "iniciados" conseguem compreendê-las e ensiná-las com maestria?
Por quê persisto em tentar compreender as coisas reveladas, como também conhecer as não registradas na Bíblia, mas manifestas no dia a dia da vida cristã?
Por quê desejo tanto não ser cauda, mas cabeça, se o Cabeça é somente um, Jesus Cristo, e eu possívelmente seja a tão desprezada calda?
Por quê continuar com tantas ambições ministériais (na maioria das vezes esta se mostram como um desejo por reconhecimento e glória pessoal), se estas causam em mim tanta tristeza, tanta angústica, e tanta culpa quando minhas debilidades revelam-me incapacidade de realizá-las? Por quê? Por quê?
Há ainda tantos outros "por quês", como o "por quê" insisto na oração quando minh'alma não consegue sentir nenhum indício da presença de Jesus Cristo; ou mesmo o "por quê" insisto em afadigar-me no estudo da Palavra diante da minha incapacidade de viver em total sintonia com aquilo que ela ensina. Muitas vezes, a busca pelos meios levam-me à conclusão de que o fim poderá não ser o que desejei no princípio, mas que, neste fim, continuarei, em 90% dos casos, a ter muitos dos desejos e erros do início.
Estas são apenas algumas das muitas perguntas presentes hoje em meu coração. Sinto-me inquieto, observante, mas sem respostas para nenhuma delas. Pelo menos, nenhuma resposta pronta, e, reconheço, não as desejo.
Então, você pode perguntar: "o que queres?". "Onde queres chegar?". Esta é também uma pergunta para a qual não tenho resposta, a não ser que desejo ser conduzido pelo Senhor nesta minha busca.
Desta forma, plagiando a afirmação do mais famoso de todos os filósofos clássicos da antiga Grécia, Sócrates, pego-me com mais uma pergunta (e a vejo como palavras nos lábios dos que, com razão, estejam achando minhas palavras sem lógica - hei de confessar não saber muito bem onde o que escrevo possa levar-me): "só sei que nada sei"?
Respondo, porém, a mim e a todos: Penso que não!
Apesar de ainda não saber onde todas minhas perguntas hão de levar-me, reconheço não ter perdido o "norte" de minha bússola da fé: Jesus Cristo.
Apesar de tantos questionamentos a respeito de mim mesmo, e de meus passos, e de rejeitar atualmente as respostas prontas "ainda não é o tempo de Deus", "descanse no Senhor" e outros "chavões" evangélicos (os quais comparo às respostas que se vê nos tópicos de ajuda de qualquer programa operacional Windows, que em sua maioria não ajudam em nada, pelo contrário, confundem), quero afirmar hoje que continuo minha peregrinação pelo Caminho proposto pelo Pai: Jesus, o Cristo. (João 14. 6 e Hebreus 10. 19-20).
Gostaria de deixar bem claro: quaisquer que sejam as respostas, ou qualquer que seja "a" resposta (sim, pois a quem as peço poderá não me dar muitas, mas possívelmente uma), hei de ser mantido com os olhos fixos no autor e consumador da minha vida e fé: Jesus Cristo; o que não tenho certeza, porém, é de como serão meus passos daqui para frente.
Só não me vejo disposto a continuar parado, como penso estar nos dias de hoje, ante a uma predominante ideologia "evangélica" brasileira (às vezes tão doentia, maléfica e até mesmo diabólica) que não me deixa caminhar. Não irei entrar em detalhes sobre esta ideologia. Não preciso conceituá-la. Quem vive sob o impacto da mesma sabe do que falo.
Por isto, permito-me o privilégio da dúvida quanto ao meu futuro na estrutura eclesiástica dos meus dias.
Por isto, permito-me o privilégio de ser inquietado pelo questionamento intenso de minha consciência ao meu coração. Se este produzir pelo menos 1% do que produziu no coração dos reformadores, e creio estar produzido nos corações de muitos homens e muitas mulheres cristãs do meu tempo em todo o mundo (não estou sozinho), sentir-me-ei parte do processo de cura e libertação ao qual, creio, o Senhor deseja levar sua igreja.
Desejo, portanto, estar nos braços do Pai, e por ele ser cuidado, não mais como criança de colo, mas como filho, que segundo promessa sou.
Semelhante ao salmista olho para o alto e pergunto a mim mesmo: "de onde me vem o socorro?"(sim, o socorro já vem, e não demora). Semelhante ao salmista, ouço uma voz gritar bem alto: "o meu socorro vem do Senhor, que fez os céus e a terra"; "O nosso socorro está no nome do Senhor, que fez os céus e a terra", Salmos 121. 1-2 e 124.8.
Assim sendo, neste momento estou indo em direção à mesa do Senhor. Mesa de íntima comunhão onde por Ele serei servido. Sei que neste lugar iremos conversar. Sei que neste lugar poderei apresentar meu coração e suas inquietações. Sei que neste lugar, ainda que Ele se mantenha em silêncio, e o dê como reposta, este mesmo silêncio acalentará e direcionará meus passos.
No amor daquele cujas Palavras são poder e vida eterna,
Cleber Batista Gouveia
Pastor Auxiliar da 1a. IPI do Distrito Federal

15 fevereiro 2007

Oração e comunhão

Oração e comunhão

Fazemos apressadas e impacientes tentativas de orar, e, não vendo bons frutos, dizemos que a prática é inútil, e abandonamo-la.
A oração é como a amizade. A amizade não se prova assim de relance, de passagem. Não se constrói com alguns segundos e nem se torna forte com encontros esporádicos e sem interesse pelo outro. A amizade é antes uma condição de vida –de vida constante e persistente– e os seus resultados se vão manifestando com o tempo. Assim é a oração: o seu resultado vai-se manifestando com a continuação da nossa íntima comunhão com Deus.
Eis a palavra chave na vida de oração: Comunhão! A grande dádiva que esperamos na oração é que Deus se dê a Si mesmo, em comunhão conosco. E o mais que Ele der será incidental e secundário.
Separei pequenas pérolas sobre a oração, recolhidas nos últimos 9 anos, a fim de que possamos meditar e, quiçá, sermos motivados a procurar a Deus em oração.

A.C. Benson
“Oração não é uma repetição mecânica das formas verbais, porém uma forte e íntima afinidade do nosso coração com o Pai”

Sir Thomas Browne, famoso médico inglês:
“Já me resolvi a orar mais e orar sempre, a orar em todos os lugares onde o silêncio convida, em casa, no caminho, na rua e a não saber de nenhuma rua ou avenida nesta cidade que não possa testificar que não me esqueci de Deus?”

Irmão Lourenço:
“Oração é uma firme consciência da presença de Deus, e constante comunhão com Ele”
“Oração é a aspiração da nossa pobre alma sobrecarregada por seu eterno Pai, com ou sem palavras, sentimento este espontâneo”. .

Agostinho de Hipona:
“Dá-me a tua própria pessoa, sem a qual, mesmo que me desses tudo o que fizestes, ainda não podia ser satisfeito o meu desejo”/

Thomas à Kempis:
“É pouco e não satisfaz tudo o que pudesses doar, afora Tu mesmo”.

“Esta idéia da oração enquanto comunhão não é nem moderna nem antiga; é propriedade comum de todos os santos cristãos que penetraram o âmago da oração. As perplexidades se encontram nas franjas da oração; a oração na sua essência é tão simples e tão profunda como a amizade”.

Perceber a oração como comunhão com Deus nos faz perceber que às vezes temos orado muito mais que pensamos, mas também que devemos orar bem mais do que já oramos! O Apóstolo Paulo ao escrever aos tessalonicenses (I Ts. 5.17): “Orai sem cessar”, não falava de petição, mas de comunhão contínua.
Perceber oração como comunhão é perceber que o coração do Pai está aberto e você é bem vindo ali. Deus convida você a entrar no Seu coração. O coração do Senhor é a casa onde nos encontramos seguros, protegidos... Você é bem vindo ali. Então, ore!

“A oração genuína e total nada mais é do que amor” (Agostinho de Hipona)

Rev. Ézio Martins de Lima
Agende a sua presença no II Congresso de Oração da IPI Central de Brasília:


II CONGRESSO DE ORAÇÃO
“Muito pode, por sua eficácia, a oração do justo”.(Tiago 5:16)



Dia 16 de março, sexta-feira, às 20h
Tema: “Por que devemos orar?”
Preletor: Rev. Adail Carvalho Sandoval, pastor titular da Igreja Presbiteriana de Brasília

Dia 17 de março, sábado, às 20h
Tema: “Orar faz bem para a saúde”
Preletor: Rev. Jean Douglas, pastor titular da 1ª Igreja Presbiteriana Independente do Distrito Federal

Dia 18 de março, domingo, às 10h00 min
Tema: “Por que orar, se Deus sabe todas as coisas?
Preletor: Rev. Valter Moura, Diretor do Seminário Presbiteriano de Brasília

Dia 18 de março, domingo, às 19h
Tema: “A oração, a evangelização e a conversão”
Preletor: Rev. Valter Moura, Diretor do Seminário Presbiteriano de Brasília

14 fevereiro 2007

IRA - Por Ricardo Gondim

Olá a todos...
Graça e Paz da parte de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo....
São 2 da manhã do dia 14 de fevereiro de 2007...
Neste momento, estou postando um texto de Ricardo Gondim que recebi por email...
Publico sem a devida autorização, confesso. Não consegui entrar em contato com o autor do Texto. Mas, mesmo assim, o publico, pois acredito que vale a pena correr o risco do processo. Acredito que, se pelo menos uma pessoa a mais o ler, e mudar sua forma de ser como cristão diante de tanta maldade, valerá a pena.
Por fim, o faço porque as palavras de Gondim são o que desejo falar, com um detalhe importante: capacidade de raciocíonio e análise da realidade expostas com muita clareza e maestria.
Deus o continue usando Ricardo, e queira Deus que, nós, os evangélicos, sejamos novamente alcançados pela Graça de Deus, e, assim, exortados por profetas como tens sido, para que possamos viver o lema da Reforma Protestante: "Igreja Reformada sempre se reformando".
Cleber B. Gouveia.
Segue abaixo o referido texto. Leia, vale a pena...
Por Ricardo Gondim

Sou pastor de uma comunidade cristã em São Paulo; lidero uma rede de igrejas espalhadas pelo Brasil, somando entre 20 e 25 mil pessoas; conduzo um programa de rádio diário também em São Paulo; escrevo para duas revistas de circulação nacional e, porque mantenho um site na internet, sinto-me membro da novíssima comunidade dos blogueiros.
Apesar disso, minha capacidade transformadora é pífia. Minha voz, semelhante a de milhões de brasileiros, não representa quase nada; não sou conhecido das elites, nunca estive na presença de um presidente da república e jamais usei um passaporte diplomático.
Partilho do sentimento de impotência que toma conta dos meus irmãos. Sinto-me frustrado, revoltado, irado, indignado, sei lá que expressão usar, com tudo o que ocorre na minha terra.
Assisti a eleição dos novos presidentes da Câmara dos Deputados e do Senado com uma vontade louca de comprar um megafone, ir para a Brasília, e ficar gritando palavrões em plena praça pública. Tive impulso de chamar aqueles políticos arrumadinhos, empertigados dentro de seus ternos novíssimos, posando, feito jacus, para fotografias, com as palavras mais chulas da gíria portuguesa. Entendo que o jogo político é necessário; sei que disputas de poder acontecem em todas as instituições; compreendo que “ruim com os deputados, pior sem eles”.
Ninguém precisa me dar aula de democracia (sou filho de um preso político na ditadura e sei o horror dos tiranos), mas, mesmo reconhecendo a necessidade das instituições, fiquei vermelho de raiva com a inauguração do novo Congresso. Vejo meu país sangrando e os mesmos chavões sendo repetidos. Sinto que vivemos em meio a um desdém aviltante.
Ninguém mais se lembra da aluna de uma universidade do Rio de Janeiro, vítima de uma bala perdida, e que ficou tetraplégica; ninguém mais se lembra daquele senhor que chorava enquanto desenterravam seu filho de debaixo da cama de um soldado da Polícia Militar; ninguém mais se lembra da fotografia de uma adolescente se prostituindo, sentada no colo de um velho nojento do Amazonas; ninguém mais se lembra das mães que enterraram seus filhos, mortos por falta de asseio numa Unidade de Tratamento Intensivo de um hospital público. Dois dias depois das tragédias, chegam outros sinistros mais pavorosos e vamos nos acostumando; de horror em horror chegaremos no inferno preparado pelos próprios brasileiros. Querem saber? Chega...
Para mim chega, já que os evangélicos degringolaram e hoje a grande maioria dos freqüentadores dos cultos é composta de pessoas infantilizadas pela religião; noto que o movimento do qual já fiz parte não se importa com a justiça nacional, não chora com os que choram e não defende o direito dos mais frágeis. Eles se reúnem em seus auditórios com uma única preocupação: acessar o divino, para se safarem.
Para mim chega, já que vejo a elite burguesa se locupletando há séculos, sem que ninguém consiga fazê-la mudar. Ela é preguiçosa, mesquinha, egoísta e insensível à miséria que vive do outro do lado do muro de seus condomínios. A elite brasileira se preocupa prioritariamente em blindar seus carros, freqüentar desfiles de moda breguíssimos em shoppings centers, freqüentar os mesmos cabeleireiros badalados e caros das modelos analfabetas, sair, feito “papagaio de pirata”, nas páginas das revistas de fofoca e comprar roupas em Miami. Ela não está nem aí para a miséria que cresce sem parar.
Para mim chega, já que os intelectuais nacionais atolaram na irrelevância de seu esnobismo; trancaram-se em suas torres de marfim, com textos herméticos e propostas mirabolantes e inúteis dos teóricos de direita ou de esquerda.
Imóvel e impotente, tenho vontade de chutar o mastro central desse grande circo de lona rasgada chamado Brasil.
Não passamos de um povinho sem sangue nos olhos, uma nação sem brios.
Faltam poucos dias para o país parar de novo para ver as escolas de samba, patrocinadas pelo tráfico, desfilarem a nudez das mulheres mais deslumbrantes que nossa raça produziu.
Os poucos gringos com uma libido maior que o medo de morrer, vão babar. E nós, sentaremos em nossas poltronas por quatro dias, embriagados de cerveja e sexo esqueceremos que já perdemos nossa alma.
Morreu um menino e estou com asco dos brasileiros que elegeram o Clodovil, o Maluf, o Genoíno, o Palocci, o Collor, o Sarney e toda aquela farsa chamada de Congresso Nacional. Sinto náuseas e o meu inferno são os próprios brasileiros.
Morreu um menino e não posso dormir sem antes dizer que, se pudesse, diria aos meus patrícios que a nossa perversidade está transbordando a medida da ira divina.
Morreu um menino, mas o pior ainda está por vir.
Morrerão muitos outros e continuarão as mesas redondas de idiotas discutindo as fofocas do futebol.
Morrerão muitos outros e a Daslu continuará vendendo calças jeans de 2 mil dólares.
Morrerão muitos outros e alguns poucos continuarão tomando vinho de 7 mil dólares em banquetes faustosos.
Morrerão muitos outros e os pastores continuarão prometendo abrir portas de emprego para quem der dinheiro em seus cultos.
Cansei do deboche e não sei o que fazer. Estou revoltado com o cinismo e não sei para onde me voltar.
Antes que esqueça: o nome do menino era João Hélio e seus pais ainda estão chorando muito...
Soli Deo Gloria.
Você poderá ler outros textos do autor no site: www.ricardogondim.com.br

10 fevereiro 2007

A conspiração do bem


Disse-lhe Jesus: Mulher, que tenho eu contigo? Ainda não é chegada a minha hora. João 2:4

Ele, porém, voltando-se, disse a Pedro: Para trás de mim, Satanás, que me serves de escândalo; porque não compreendes as coisas que são de Deus, mas só as que são dos homens. Mateus 16:23


Haveria algo mais difícil do que ter de resistir ao mal evidente que nos cerca todos os dias? Desligar a TV durante aquelas programações que nós sabemos o que estão propondo, ou até mesmo desviar dos links e janelas que surgem nas telas dos nossos computadores levando-nos a sites obscuros? Ou até mesmo conduzir nossos olhos ao sentido oposto ao das bancas de jornal e os nossos ouvidos atentarem para longe de bate-papos malignos e afiados? Não é difícil resistir e dissimular frente às ofertas de piadas degradantes, diante das quais a grande maioria solta espaçosas gargalhadas, ou não se deixar seduzir por propostas de ganho fácil e imediato que custem o sacrifício dos valores que com tanto esforço pleiteamos cultivar ao longo de nossos anos?

Essa pós-modernidade bombardeia incessantemente a todos os nossos sentidos com o convite ao que é fácil, barato, prazeroso – uma verdadeira sinfonia cuja melodia agrada em cheio aos ouvidos da nossa sociedade hedonista – que em meio a todo esse “prazer”, revolve-se e chafurda-se ainda mais na lama que a envolve.

Sinceramente, creio que o esforço que o cristão emprega, se verdadeiramente fiel, em busca de uma vida santificada e íntima com Deus nos dias de hoje só é comparável ao enfrentamento dos leões na arena de César...

O pior é que não fica por aí.

Como se não bastasse, a nossa batalha vai além do pecado descarado e publicado, amado e cultivado nos dias de hoje.

Se logramos êxito ao resistir aos convites dos out-doors e dos comerciais de TV, muitas vezes somos vítimas da conspiração do bem, ou da “confraria da boa-vontade”. Confuso? Explico-me.

Confesso que logo aos primeiros passos da fé, os dois versículos os quais cito, no início deste texto, me chamaram a atenção. Eles pareciam uma dissonância, uma contradição ao conceito que eu até então eu cultivava:

- Puxa, mas como é que Jesus pôde ser tão grosso com a própria mãe?...

- Caramba, mas que palavra dura Jesus disse a Pedro...

Aos mais doutos, perdoem-me a sinceridade, mas era exatamente isso que eu pensava, e assim como eu, creio que muitos outros. “Como é que Jesus poderia falar assim com quem estava sendo tão bonzinho por preocupar-se com ele mesmo e com os outros?” Maria, preocupada com a situação constrangedora a que o noivo se sujeitaria, tendo o vinho acabado bem no meio da festa, e Pedro, zelando pelo bem-estar do Mestre, ao ouvi-lo dizer que o Filho do Homem padeceria e seria morto.

Com o tempo, tristes verdades e duras realidades acabam mostrando que esse mal encoberto consegue ser pior até mesmo de que todo esse pecado escancarado. E o que é pior: muitas vezes nos tornamos agentes dele.

Conseguimos resistir, ainda que com tropeções, ao combate nas trincheiras abertas, mas ao fogo amigo, aquele que vem dos combatentes que se dizem estar ao nosso lado, somos vulneráveis. Nossa guarda está sempre aberta, pois jamais pensamos que são capazes de, armados das “melhores intenções,” atuarem em nossa vida em sentido contrário ao que Deus espera de nós. É aquele irmão que gosta tanto de nós que não abre mão de que no fim de semana não estejamos em sua casa no almoço, no mesmo dia em que poderíamos promover um evangelismo, é o outro que ama tanto a igreja, e suas tradições, que faz parte da “família real” há tanto tempo que não pode admitir que a santidade de seus hinos seja maculada pela cantoria barulhenta desses jovens de hoje com seus cânticos – talvez aquele velhinho gentil e freqüentador tão assíduo, que não admita que a alegria que pudesse haver em nossos templos corresse o risco de agredir a tão idolatrada “ordem e decência”, que se coloca muitas vezes acima da nossa liberdade de amar o outro. É a turma do “deixa disso” , do comodismo, a turma do “deixa como está”, ta bom assim – enquanto nossos cultos se esvaziam, nossas festas se multiplicam.

Acho que nas igrejas todos erramos quanto a isso, aos membros – e aí me incluo eu – por fazermos o papel de Marias e Pedros, na melhor de nossas intenções muitas vezes na hora errada ou inocentemente atentando contra o propósito soberano de Deus, com a consciência falsamente tranqüila, como quem não sabe nada nem o que está se passando, até que as coisas não corram como deveriam e não venhamos a nos sentir culpados quanto a isso, jogando a culpa nos pastores.

Mas os pastores também erram, quando não buscam a lucidez e o discernimento para perceberem, no momento do agrado mais singelo, da preocupação mais sincera, o mal dissolvido, o risco iminente de se tornar vítima da “confraria do bem”, esquecendo-se de que sempre haverá um interesse humano por trás de cada ato, ao qual caberá sempre a resposta imediata e precisa, nos moldes de Cristo, sob pena de que nossos interesses se sobreponham aos d´Ele.

É preciso estar atentos, pois, se pararmos um pouco e olharmos para nossa história, como igreja, e porque não dizer como pessoas, veremos o quanto se perdeu agindo sinceramente errados, pedindo a vontade de Deus, mas fazendo a nossa própria, desejando que Ele decida, mas agindo por nós mesmos.

Muito mal e muito dano já foi causado, é tempo de observar e aprender, é tempo de reparar os muros, reconstruir. Mesmo que isso ao final nos custe a amizade daqueles que, sinceramente errados, nos ofereceram paz em tempos que eram de guerra, festa em tempos de pranto.

Se é tempo de guerra, vamos a guerrear, se é tempo de se humilhar, orar, e buscar a face de Deus, o façamos. Sobretudo, façamos aquilo que a Deus agrade, a Seu tempo, e conforme a Sua vontade.

09 fevereiro 2007

Palavras em favor da vida... Diante da realidade da morte...




“Também disse Deus: façamos o homem à nossa imagem, conforme nossa semelhança...” Gênesis 1.26

“Então, formou o Senhor Deus ao homem do pó da terra e lhe soprou nas narinas o fôlego de vida, e o homem passou a ser alma vivente.”
Genesis 2.7

“Não matarás.”
Êxodo 20.13


A vida realmente não tem mais seu valor. Deus criou, e diz a Palavra, que a vida do homem fora gerada durante todo um dia de trabalho. O Homem fora planejado, e a vida, colocada com muito amor em algo inanimado, feito do barro. Por ter sido feito do barro, é frágil, como um pote de barro o é. E é triste ver como a falsa sensação de poder sobre a vida e a morte tem cegado a muitos, levando-os a decidir quando e onde por fim à vida de seu semelhante, como se fosse o mesmo que tirar a vida de um inseto, ou o mesmo que decidir qual sapato ou roupa usar.
Há uma banalização da vida humana, e por isto, uma desvalorização da vida desta obra magnífica do Criador: eu e você, nós e todos nossos iguais...

É o que vejo no episódio da criança morta no Rio, em troca de nada. Sim, pois, o que é um bem inanimado, e com tempo útil de vida, cujas peças seriam no máximo revendidas por “preço de banana”? O que é este objeto de desejo que no máximo seria usado até que a maresia da brisa do mar o destruisse, ou um acidente de trãnsito o fizesse não ter valor, diante da preciosa vida de uma criança?

Penso eu, de forma desalentadora, que tal fato nos mostra a realidade de nossos dias, onde a preciosidade da vida só está diante dos olhos daquEle que a criou, pois, nós, os semelhantes, não nos vemos mais assim, tão preciosos.
Mata-se por ciúmes, como acontecera no lar de dois jovens no Gama nesta ultima terça, dia 6/02, os quais, pasme, eram evangélicos. E ai, vê-se que até mesmo os filhos, adotados em amor, não aprenderam sobre o Pai.
Vejo muitos filhos de caim, e poucos filhos do Criador... Pois, há pouca revolta e luta contra o mal que se alastra. Poucos estão nas trincheiras... Poucos têm posto a mão no arado, e, muitos, têm olhado para trás, quando não estão olhando para si mesmas.

Entretanto, o que não podemos é nos render diante da desvalorização da vida. Ela é preciosa, única, e poderá ser vivida eternamente somente se este ser animado pelo sopro da vida voltar para o Seu Criador, como nos ensina o Salmo 100 versículo 3.
Pena que nós, os mais beneficiados por tão grande amor, não consigamos compreender, e desta forma nos deixemos seduzir e conduzir pela mentira diabólica de que a vida nos pertence, e dela, podemos fazer o que bem entender.

Diante de tal realidade tão desgraçada, sim, porque não se vê a Graça de Deus nos corações dos homens que fazem o mal e dos que se calam diante deste mesmo mal, quero registrar meu sofrimento e dor; minha revolta e ira; minhas lagrimas e desconsolo diante da morte trágica desta criança, e desta jovem mãe.
Diante de tudo isto, quero colocar meu coração nas mãos do Criador, para que desta forma minha vida esteja no lugar certo, e neste lugar seguro possa ser ensinado de que a vida pertence ao que a fez, e o tirá-la também. Pois, a mim, e a todos os meus iguais, nos cabe tão somente gozá-la da melhor forma, preferencialmente na presença do que a Criou.

Deus nos ajude, e nos sustente graciosamente a cada dia, em Cristo Jesus, amém!

Cleber B. Gouveia
Pastor Auxiliar da 1a IPI do DF e
Capelão do Colégio CEDECAP, em Taguatinga-DF.

08 fevereiro 2007

O Espelho que tudo vê...

“Ó Deus, vê se há em mim algum pecado e guia-me pelo caminho eterno...”
Salmo 139.24

Você já tentou olhar para o seu próprio nariz? Confesso quando criança ter tentado fazer isto por varias vezes, e ainda hoje, às vezes pegar-me nesta tentativa. Sabemos bem como é difícil não vê-lo, ou se vemos, isto ocorre de forma desfocada. Fica claro, portanto, ser algo muito difícil a tarefa de olhar para o próprio nariz, a não ser que se esteja em frente a um espelho; imagine então olhar para o que há em nosso coração.

Da mesma forma que, para se poder ver claramente nosso nariz, é necessário estar em frente a um espelho, creio que, quando tentamos sondar nossos próprios corações, em seus mistérios mais profundos, também precisarmos de auxilio para vermos o mal que neles há.

Penso assim por entender que nossos corações (ou mentes) são, primeiramente, como nossos pais, quando estes olham para nós e não conseguem ver nossa feiúra, ou mesmo nossos defeitos. Trabalho em uma escola com muitos adolescentes e seus problemas naturais da adolescência. Quando há algo envolvendo um ou mais adolescentes, e os pais são chamados para conversar, sempre se vê em sua expressões ou palavras a frase: “meu filho não; o outro sim, o meu não!”. Na maioria das vezes mascaram, escondem ou fazem vista grossa, e afirmam: “meu filho não seria capaz de fazer isto!”. Ou seja, ainda que vejam ou saibam quem há algo de errado, a grande maioria prefere fazer de conta que não viu”; com os nossos corações acontece o mesmo.

Outras vezes, nossos corações se mostram como um Hipermétrope (pessoa que enxerga bem o que está longe e não consegue focar o que esta perto), não conseguindo, assim, enxergar direito seus próprios defeitos. Jesus falou sobre isto ao afirmar que conseguimos enxergar o cisco nos olhos do próximo, mas não a trave que há em nossos (Mateus 7.13). Precisamos, desta forma, ir ao espelho que tudo vê, como aquele da estória da Branca de Neve, e pedirmos: “Espelho, espelho meu, revela-me o pecado que de mim se escondeu”.

Creio ter sido a consciência desta realidade o que levou o salmista Davi pedir auxilio ao Senhor, o “espelho da nossa alma que tudo vê, e tudo pode nos revelar a respeito de nós”. Davi sabia que sua natureza pecaminosa era como um cleptomaníaco, o qual rouba, mas nega seu erro. Que seu coração era às vezes como alguém embriagado que nega todas as suas atitudes ofensivas aos que ama, ou até mesmo como aquela pessoa a qual afirma nunca ter pecado, “pois não mata, não rouba e não faz mal a ninguém, nem mesmo ao mosquito da dengue”. Davi, contudo, também tinha plena convicção de que o Senhor podia conhecer o mais íntimo do seu coração, e desvendá-lo.

Nós também devemos reconhecer nossa incapacidade diante do nosso pecar, e da nossa necessidade dos olhos do Senhor. Precisamos reconhecer que somente o Espírito Santo poderá nos convencer do nosso pecado (João 16.8), e clamar para que este, que sonda também o mais íntimo do coração de Deus (1a. Corintios 2.9) possa penetrar no mais profundo do nosso ser, revelando nossa miséria, e nos direcionando pelo caminho eterno.

Como Davi, precisamos crer e compreender que o Senhor Jesus tem prazer em nos mostrar onde estamos entristecendo Seu coração, e nos chamar ao arrependimento (Lucas 5.32), e, uma vez quebrantado nossos corações, nos guiar em Si mesmo, o caminho direto ao Pai, o caminho eterno do Pai (João 4.6). Precisamos, portanto, olhar para o espelho espiritual que tudo vê, e tudo revela a respeito de nossos corações, e assim, sermos levados ao caminho eterno cheio de Paz, Vida e Amor de nosso Deus.

Cleber Batista Gouveia.
Pastor Auxiliar da 1a. IPI do DF, e
Capelão do Colégio CEDECA, Taguatinga DF.

21 janeiro 2007

Encurvada

E chegou ali uma mulher que fazia dezoito anos que estava doente, por causa de um espírito mau. Ela andava encurvada e não podia se endireitar.
Lucas 13. 11


A discussão que tem lugar nesse quadro no relato de Lucas diz respeito ao sábado. Mas eu não quero dar atenção nesse texto nem aos fariseus, nem ao sábado. Eu quero pensar nessa mulher.
Ainda me recupero de uma terrível crise de dor ciática, provocada pelas minhas duas protrusões discais. Essa deve ter sido a segunda pior crise que eu tive desde que apareceram as minhas primeiras dores, seis anos atrás. A crise foi tão intensa que eu tive de me afastar do trabalho. Não conseguia me levantar, sentar ou deitar sem auxílio. Além disso, andava me arrastando, segurando nas pessoas e nas paredes. Não agüentava ficar muito tempo sentado, deitado ou em pé.

Mas essa não foi a pior crise. A minha pior crise foi a primeira de todas. Era dezembro do ano 2000 quando eu senti as primeiras dores. Duraram uma semana. Depois, sumiram por uma semana. Quando as dores retornaram eu não podia imaginar que elas não sumiriam até agosto de 2001. Passei quase oito meses sentindo dor constantemente. Não houve um segundo em todo esse período em que meu ciático não doesse – não estou exagerando. Claro que não era sempre a mesma intensidade de dor, mas era uma dor constante e ininterrupta.

É por isso que eu quero pensar nessa mulher que fazia dezoito anos que estava doente, encurvada, sem conseguir se levantar. Eu posso fazer idéia, imaginar, o tamanho sofrimento que essa mulher teve ao longo de todos esses anos de doença. Os tantos médicos e curandeiros que ela deve ter buscado. Os parcos recursos que ela deve ter gastado em busca de cura. A discriminação que deve ter enfrentado em virtude de todas as suas dificuldades. A dor, o incômodo e a falta de mobilidade.

Foi uma vida difícil até aquele dia, até que ela entrou naquela sinagoga. Posso imaginar que ela não fazia idéia que naquela tarde sua busca intensa se encerraria. Sua dor se esgotaria. Imagino que ela não tinha idéia de quem iria encontrar naquele lugar.

Jesus é simples e direto com ela. Mulher, você está curada (Lc. 13. 12). Não pergunta nada, não ouve pedido, não questiona. Simplesmente a cura, tocando-a para não deixar dúvidas sobre o que estava fazendo. Assim, num toque, o sofrimento e a busca de dezoito anos se foi. Num toque do Senhor, com uma Palavra de Deus.

Às vezes, nossa dor e nossa busca são físicas mesmo. Nosso sofrimento é físico, como acontece comigo em minhas crises. Lembro que, em 2001, quando morava no Seminário, chorei em alguns momentos; não de dor, mas de desespero por não me ver livre daquele incômodo constante. Naquelas horas, eu desejava um alívio e uma cura física. Nem sempre ela virá, eu sei. Você deve descobrir isso também.

Outras vezes, nossa dor e nossa busca são de outra natureza. Às vezes, não estamos fisicamente encurvados há dezoito anos como aquela mulher, mas as emoções não curadas, os ferimentos e as doenças espirituais encurvam a nossa alma e nos deixam debilitados. Você pode não ter um problema físico de que deseje a cura, mas pode ter um ferimento de outra ordem, que oprime você e encurva sua alma.

Em todos os casos, precisamos encontrar Jesus. A cura e a mudança de vida daquela mulher se deram no seu encontro com Jesus naquela tarde, naquela sinagoga. Não importa quanto tempo faça que você sofra com isso. Não importa se são cinco dias ou dezoito meses: um encontro com Jesus é o que você realmente precisa para mudar a situação. Mesmo que esse encontro não represente a cura – nem sempre representa – ele vai mostrar a você que não é preciso carregar o peso do sofrimento – físico, emocional ou espiritual – sozinho. Ele estará, a partir desse encontro, com você, o apoiando e enxugando qualquer lágrima de dor ou de sofrimento. E a paz que encherá a sua alma será suficiente para ajudá-lo a enfrentar o que de mal ainda puder surgir.

Mas o encontro com Jesus será a sua cura. Cura da opressão da dor e do sofrimento, do corpo ou da alma. Mesmo que o fim dessa opressão não signifique, necessariamente, o fim da dor, mas apenas o alívio de saber que Jesus está com você em cada momento.
Daniel Dantas
Jornalista e funcionário da Petrobrás.

13 janeiro 2007

Novo tempo, nova realidade...

Olá...Graça e Paz da Parte do Pai em nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo.
Sei que há muito tempo não escrevo neste blog. Às vezes, nós, os que escrevemos ficamos bloqueados, eu pessoalmente tenho muito disto. Realmente falei muito sobre a vida nova em Cristo Jesus para os da comunidade onde sirvo ao Senhor. Contudo, não tenho escrito muito. Volto com este texto, escrito para o informativo dominical. Espero que possa ser edificante para sua vida, em Cristo Jesus, amém!

Vivemos novos tempos! Novos tempos significam novas estruturas, e novas estruturas, a necessidade de novo pensar. E é a partir de uma reflexão contemporânea que nós, pastores e presbíteros, entendemos ser necessário trabalhar uma nova estrutura para a vida comunitária de nossa igreja. E a chamamos de: Igreja em Ministérios.

Pensando neste processo de transição, não posso iniciar nosso bate papo sem dizer que você é importante dentro dele. Neemias (Capítulo 2), por exemplo, quando desejou reconstruir Jerusalém, que estava assolada, conseguira bom termo diante de Deus e do rei, e poderia ordenar o que quisesse e fosse necessário para que seu ideal fosse concretizado. Contudo, sentou-se com os principais do seu povo em Jerusalém, e compartilhou com estes o que Deus havia feito por ele, convidando-os a participarem do processo de reconstrução. Por fim, todas as famílias que ali estavam se envolveram no processo. O que isto significa? Cada um deles era importante para a reconstrução de Jerusalém. O que quero dizer com isto? Cada um de nós, membro da 1ª.IPI, do Distrito Federal é importante para que o processo de transição para uma Igreja em Ministério seja bem sucedido, bem como permaneça e dê frutos.

Na história de Neemias, o entendimento por parte do povo se fez de forma concreta. Eles literalmente puseram as mãos na massa (v. 18), e trabalharam para reconstruir os muros.
Nós também precisamos deste desprendimento. Todo o processo de transição dependerá do nosso envolvimento não somente em oração nos lares ou no templo, como forma de intercessão pelos lideres. Sozinhos não farão o que deve ser realizado. Ministérios não se mantêm somente pelo trabalho dos seus lideres. Assim como Neemias sozinho, ou mesmo com os sacerdotes e nobres, não conseguiria reconstruir nada somente com o apoio moral do restante dos habitantes de Jerusalém, não se poderá concretizar o sonho de ministérios fortes e eficazes sem o envolvimento verdadeiro, prático, no dia-a-dia, de cada membro de nossa comunidade, incluindo você.

Creio que Deus, em Seu coração, tem um Dom espiritual para a sua vida. Se você ainda não o tem, é preciso buscá-lo, e mais, torná-lo evidente, frutífero dentro da comunidade, para que ela, como Corpo de Cristo, cresça em amor para o bom desenvolvimento de seu serviço como Serva do Altíssimo.

Assim sendo, o que pretendo nesta pastoral é dizer: não se esconda, pois a luz não pode ser acessa e escondida debaixo da cama (Mt 5.14). Não perca o sabor, pois os dons e o amor de Deus em nos dá um sabor único, e não se pode perder o sabor que lhe dá o sentido de existir (Mt 5.13). Seja como aquele que vive e serve ao Senhor com sua vida, talentos e Dons recebidos do alto, e andemos pelos vales áridos fazendo brotar ali um manancial de vida em Cristo Jesus. Amém.
Rev. Cleber Batista Gouveia
É Pastor Auxiliar da 1a. IPI do DF, e
Capelão no Colégio CEDECAP, Taguatinga DF.

30 dezembro 2006

Elias

Agora eu sei que o senhor é um homem de Deus e que Deus realmente fala por meio do Senhor!
1 Reis 17. 24

Queria ser reconhecido e viver em uma comunidade que fosse reconhecida por ser instrumento por meio de quem grandes libertações e milagres se operassem. Elias era um homem assim. Era um profeta cujo poder se funda em sua relação com o Senhor. Em sua intimidade e comunhão com o Pai ele é conduzido à casa de uma viúva em Sarepta. Ali, ela mora sozinha com seu filho e se prepara para cozinhar o último pãozinho e, então, morrer de fome ao seu lado naquela terrível seca.
Quando o profeta chega, Deus muda tudo por meio dele. Não se preocupe! Vá preparar a sua comida. Mas primeiro faça um pãozinho com a farinha que você tem e traga-o para mim. Depois prepare o resto para você e para o seu filho. Pois o Senhor, o Deus de Israel, diz isto: “Não acabará a farinha da sua tigela, nem faltará azeite no seu jarro até o dia em que eu, o Senhor, fizer cair chuva” (1 Rs. 13 – 14). Ninguém morrerá de fome. Deus suprirá as necessidades do Seu profeta e daquela viúva e seu filho. Enquanto a seca existir, a farinha e o azeite não se acabarão. Um grande milagre operado pela mão do Senhor naquele lugar.

Um outro grande milagre acontece quando o menino adoece e, finalmente, morre. Deus, atendendo a oração do profeta, o ressuscita. A presença de Deus na pessoa de Elias altera o quadro de maneira tremenda na casa daquela viúva. Reverte uma situação de fome e miséria de maneira miraculosa. Cura e ressuscita mortos por meio da vida do profeta. Queria ver essa realidade em minha vida e na da minha comunidade: a presença de Deus ser tão absolutamente perceptível que transforme situação de forma fantástica, ressuscitando mortos, curando enfermos, realizando milagres inauditos.

Além de sinais e maravilhas, a presença de Deus na vida do profeta expõe os segredos. A percepção da santidade de Deus envolvendo aquele homem provoca uma reação interessante na viúva. Ciente da santidade de Deus, ela teme e percebe o seu próprio pecado e sua sujeira pessoal. Homem de Deus, o que o senhor tem contra mim? Será que o senhor veio aqui para fazer com que Deus lembrasse dos meus pecados e assim provocar a morte do meu filho? (1 Rs. 17. 18). Ela vê o Deus santo no profeta e percebe-se como pecadora. Por isso, quando seu filho adoece ela acusa Elias de estar ali apenas para expor seu pecado diante de Deus.

Queria ser reconhecido e viver em uma comunidade que fosse reconhecida pela presença viva de Deus em seu meio. Presença que impactasse profundamente as vidas, que expusesse sua necessidade de perdão e de transformação, porque eu e minha comunidade estaríamos refletindo a presença santa e gloriosa do Senhor. Eu queria viver a experiência relatada em cada avivamento de que apenas pela presença de Deus na vida das pessoas, vidas eram salvas, corações se arrependiam, milagres aconteciam. A presença de Deus era tão perceptível na vida de Elias que a viúva foi impactada e transformada pelo sopro da santidade do Senhor.

Por fim, queria ser reconhecido e viver em uma comunidade que fosse reconhecida como sendo do Senhor e por meio de quem Deus fala aos homens. Agora eu sei que o senhor é um homem de Deus e que Deus realmente fala por meio do Senhor! Toda essa história serviu para que a consciência e o entendimento daquela mulher se estabelecesse. Ela, extasiada, conclui que aquele homem é especial: ele é de Deus e por meio dele o Senhor Santo do universo fala aos homens.

Não é apenas um desejo. Creio, muito mais, que seria a obrigação de todo aquele que foi resgatado pelo Senhor ser reconhecido dessa maneira que aponta o texto sobre Elias. Fomos resgatados pelo Senhor com o propósito de fazermos o Seu nome glorificado em toda a terra. Nesse propósito, existimos para torná-Lo conhecido e fazermos a Sua palavra anunciada entre todos os povos. Por isso, devemos viver, buscando com todas energias a presença de Deus, para que possamos ser instrumentos de Seus milagres – que O glorificam –, para que Sua presença em nós leve o Seu temor àqueles que precisam ainda conhecê-Lo e para que possamos ser reconhecidos como servos e servas de Deus, por meio de quem Ele dirige a Sua Palavra à humanidade.
Daniel Dantas
Jornalista e funcionário da Petrobrás.

24 dezembro 2006

Aprendamos com os pastores...


O relato do Evangelho de Lucas sobre os pastores que guardavam os seus rebanhos no primeiro Natal, e que presenciaram o cumprimento da promessa de Deus com respeito ao nascimento do Salvador, sempre me desafiam com perguntas inquietantes e exigem de mim ações concretas à altura do real sentido do Natal. (Lucas 2.8-20)

Homens comuns, fazendo coisas comuns e em um dia que aparentemente seria comum. Contudo, um anjo aparece durante a vigília da noite e anuncia a mais importante notícia de todos os tempos: “...hoje vos nasceu na cidade de Davi, o Salvador, que é Cristo, o Senhor” (Lucas 2.11).

As ações dos pastores após esta “boa-nova de grande alegria” são um desafio para a nossa vida cristã! Veja:

Verso 15: “Vamos até Belém e vejamos os acontecimentos que o Senhor nos deu a conhecer”. Eles demonstraram um real interesse em aprofundarem-se no conhecimento da vontade de Deus!

Verso 16: “Foram apressadamente...”. Conhecer mais, e de forma concreta, a vontade de Deus é urgente; é importante; é imperdível!

Verso 17 e 18: “... vendo-O, divulgaram o que lhes tinha sido dito a respeito deste menino. Todos os que ouviam se admiraram...”. Eles proclamaram a mensagem com fervor e fé, o que produzia admiração e interesse!

Verso 20: “voltaram, então, os pastores glorificando e louvando a Deus por tudo que tinham ouvido e visto...”. O interesse transformou-se em experiência concreta que redundou em louvor vivo, alegre e jubiloso!

Princípios que aprendemos com os pastores:

1) O conhecimento da vontade de Deus deve levar-me à experiência concreta com Deus. Sem tal experiência, este conhecimento de nada vale para mim!

2) A experiência concreta faz o meu testemunho ser fervoroso. Aquilo que eu creio não passa despercebido das pessoas à minha volta!

3) O louvor, a adoração e a glorificação a Deus são uma realidade visível e permanente na minha vida de fé.
Os pastores celebraram o Natal verdadeiro da maneira que Deus também espera de você e de mim!

Eu quero celebrar este Natal assim como estes pastores, e você?

Rev. Ézio Martins de Lima
Pastor da IPI Central de Brasília
e 1o. Secretário da Diretoria Nacional da IPIB.

21 dezembro 2006

NATAL É LUZ


“O povo que andava em trevas viu grande luz, e aos que viviam na região da sobra da morte resplandeceu-lhes a luz...”
Isaías 9.2-6


“Andar em trevas” expressa a vida solitária, sem esperança, sem aspirações e sonhos. É o estado de estar perdido existencialmente, socialmente e espacialmente. Não fora apenas o andar em trevas, estes ainda são sombreados pela morte. Quem vive em tais condições precisa mesmo – e urgentemente— de luz! Luz que dissipe as trevas. Luz que tire de sobre eles a sombra da morte.

Quem são estes que andava em trevas e estão sob sombra da morte? Somos nós! Você e eu!

Na nossa ilusão, concluímos que temos esta luz! Negamos que somos solitários! Negamos até a realidade da morte! Fingimos que a sombra da morte não está sobre nós! Julgam-nos imortais. Andamos com nossos pés sobre uma corda bamba em cima de um precipício sem fundo. E levamos a vida sobre a corda bamba... Está tudo escuro! A sombra da morte cobre o nosso caminho... mas fingimos que está tudo bem! Mas até quando iremos fingir?

Quando Isaías fala do nascimento de Jesus, usa a imagem da luz que é vista por aqueles andavam em trevas e que andavam na região da sombra da morte. Antes do nascimento do Salvador Jesus Cristo, verdadeiramente os homens e mulheres viviam na escuridão da falta de esperança, no frio da falta de sentido e na angustiante certeza da morte.

Mas, a grande luz surgiu. A Sua presença aniquila o poder do pecado e da morte...

Tudo quanto conhecemos de valioso, de belo, de esplendoroso, de magnífico, de sábio... Todos os nossos tesouros que nos trazem segurança, nossos conhecimentos que julgamos ter, se comparados com a Luz de Jesus são como uma fraca chama de vela. E é inacreditável que alguns decididamente tentem passar pela vida, enfrentar a escuridão e a sombra da morte, usando uma fraca luz de vela! A frágil labareda dos sofismas e das nossas pseudo-seguranças, não resiste ao menor dos ventos... Por isso há tanta gente solitária, sozinha, sem esperança, vivendo sob a sombra da morte! É que estão tentando iluminar a vida, iluminar o caminho, e se livrarem da sombra da morte, utilizando a mentira de uma pequena labareda de uma luz de vela!

Você e eu precisamos de Jesus! Precisamos da sua luz! Ele disse “Eu sou a luz do mundo; quem me segue não andará em trevas; pelo contrário, terá a luz da vida” (João 9.12).

Nestes dias há luzes por todos os lugares. Lâmpadas que enfeitam pinheiros, fachadas de lojas, ruas, árvores... Mas estas luzes não iluminam a vida, não trazem sentido à vida e muito menos nos livra da sombra da morte. Estas luzes, passadas as festas do final de ano, serão encaixotadas... permanecem, contudo, os homens e as mulheres, com o coração na escuridão.

Que natal você celebrará nestes dias e nos próximos que virão?

Que tal deixar que a luz de Jesus inunde sua vida, dissipando a escuridão e te trazendo a garantia de que a morte não terá poder sobre você? Celebrar o Natal é celebrar que a Luz de Deus visitou-nos para dissipar a escuridão e para livrar-nos da morte.

Rev. Ézio Lima
Pastor da IPI Central de Brasília
e 1o. Secretário da Diretoria Nacional da IPIB.

28 novembro 2006

Conseqüências

Vamos nos separar!
Gênesis 13. 9


Como seres humanos que somos, somos passíveis de erros. E a maior parte dos nossos erros se deve ao fato de desprezarmos aquilo que Deus, explicitamente, define como Sua vontade.
Erramos por não ouvir a voz de Deus, por não obedecê-la.
Ao chamar Abrão, em Gênesis 12, Deus foi muito claro e específico: Saia da sua terra, do meio dos seus parentes e da casa do seu pai e vá para uma terra que eu lhe mostrarei (Gn. 12. 1). A promessa de Deus se relacionava a Abrão deixar sua terra e sua família e ir para uma terra estranha, sozinho. Esse era o centro da vontade divina para o vocacionado Abrão: estar só, em terra desconhecida, longe de suas referências familiares.

Só que Abrão desobedece, fato que passa despercebido pela maioria de nós. E Ló foi com ele (Gn. 12. 4). Era para Abrão deixar a família, mas ele levou seu sobrinho. Ouvir a voz de Deus, na Bíblia, nunca demais lembrar, é obedecer. Ninguém duvida que Deus foi muito claro e especifico com o patriarca quando o chama para deixar sua casa e sua família. Abrão escutou isso, mas não ouviu. Não obedeceu.

Quando fazemos as coisas sem dar ouvidos ao conselho do Senhor, sofremos as danosas conseqüências. O exemplo mais clássico na história bíblica aparece em Josué 9. Ali os gibeonitas armam uma cena para fazer acordo com os israelitas e escaparem da destruição. Fingem ser viajantes de um país distante. Quando o acordo é fechado, o texto bíblico é claro sobre a atitude do povo de Deus: Os homens de Israel aceitaram a comida deles, porém não pediram conselho a Deus, o Senhor. Josué fez um acordo de paz com os gibeonitas, prometendo que não seriam mortos. E os líderes do povo de Israel juraram que cumpririam a sua palavra (Js. 9. 14 – 15).

Abrão desobedeceu levando seu sobrinho consigo na viagem. O que esse texto me ensina, porém, é que quando Deus tem um plano e revela a Sua vontade, Ele intervém em nossa vida, miraculosamente, para nos colocar no prumo de novo. Deus intervém para que Sua vontade prevaleça, apesar de nossa desobediência.

Abrão desobedeceu, mas logo logo surgiu uma briga entre os trabalhadores dele e de seu sobrinho, o que forçou uma separação. Vamos nos separar!

Essa história nos ensina algumas conseqüências de desobedecermos a vontade de Deus. Ele fará seu plano voltar ao centro, nem que para isso tenha que intervir da forma como interveio na vida de Abrão. Nunca é agradável ter de voltar ao centro da vontade do Senhor à força. É sempre melhor ter os ouvidos atentos e o coração disposto a obedecer. Mas precisamos saber que Deus vai fazer o Seu projeto se realizar em nossa vida, apesar de nós.
Daniel Dantas
Jornalista e funcionário da Petrobrás.

22 novembro 2006

Uma lágrima para Deus



As lágrimas fazem parte do nosso cotidiano, quem disser que não chora está equivocado, o gotejamento ocular de nossas lágrimas permite que nossa visão se renove a cada piscadela... e há ainda aqueles que por alguma limitação fisiológica são privados do seu orvalho renovador; esses têm que recorrer a um tipo de “pranto artificial”, em gotas, colírios para que aquilo que se vê não venha carregado, em suas imagens, do ardor que na sua ausência se faz peculiar. Mas não é disso que se trata.
Lágrimas me fazem pensar muito, talvez porque as considere um elo (quase sobrenatural) entre aquilo que os nossos sentidos percebem em contradição ao que a nossa alma deseja. Acho isso profundo, embora nem sempre a considere nobre – quando uma lágrima rola, as expectativas da alma se tornam evidentes e logo se percebe do que o espírito padece. Em nosso tempo, isso pode representar desde a perda de um ente querido até ao título do campeonato que não veio; do problema de saúde insolúvel a roupa preferida que por um acidente se rasgou, e por aí vai...
As lágrimas são despejadas de dentro de nós, vertidas pelas janelas da alma, e carregadas de tudo o que delas provém, via de regra a dor; as lágrimas mostram o quão grande é nossa alma, ou quão pequena. São denúncia pública de quem eu sou e o que penso – e mesmo a ausência delas falam por si só – nosso rosto denuncia e reclama pela falta das lágrimas: das boas - denúncia expressa na frieza que caracteriza os rostos secos, sem vida, sem esperança. Sim, esperança, porque lágrimas também podem ser um pedido de milagre, como se fossem carta escrita a alguma coisa que detivesse em si mesmo o poder de alterar a realidade.
- E por falar nisso, onde andam as suas?
Antes que a intromissão na sua privacidade lhe pareça um insulto, não carece que responda, mas gostaria de apresentar-lhe as minhas: copiosas, fáceis de se achar, às vezes na dor e nem sempre nobres, mas, essencialmente retratos da minha alma. De algumas eu sinto falta, de outras não.
Lendo o salmo 126, percebo o quanto Deus dá valor às nossas lágrimas - mesmo que não precise delas para nos conhecer – é possível perceber que a alma do salmista desejava algo mais do que o retorno a terra prometida, havia um desejo maior, que era o desejo da presença de Deus e da Sua aliança.
Ah, essas sim. São as lágrimas do milagre, que tocam o coração de Deus e desnudam a alma sequiosa, alma seca, que semeia em meio aos prantos na esperança de que os olhos reguem as sementes. Perdoem-me, mas há certas coisas as quais, creio, que Deus não resiste.
Em Ap. 5:4, João relata em sua visão que: “chorava muito, por não ter sido achado ninguém digno de tomar o livro, nem mesmo de olhar para ele”. Suas lágrimas denotam o profundo sentimento de tristeza, na antevisão de que o mundo ou ele mesmo fosse privado do que sua alma mais desejava. O texto segue, numa afirmação esplendorosa, de que os vinte e quatro anciãos apresentaram ao Cordeiro taças cheias de incenso, que são as orações dos santos.
Afinal, quantas lágrimas de esperança temos chorado? Será que as temos derramado em fé, e seu cálice tem sido achado à mesa de Deus, para que de nós Ele se lembre, e mude a nossa sorte? Temos chorado pela nossa família? Pela nossa igreja e pelo Reino?
Estou certo que a falta de lágrimas afeta também nossa visão espiritual, impedindo que a nossa visão seja clara e definida, a falta delas traz a irritação da secura e favorece que os olhos, por conforto, permaneçam fechados e assim, como se pode caminhar?
Seria bom que elas viessem de muitos olhos, de muitas almas, quem sabe não poderíamos derramá-las juntos? E Deus nos vendo assim, faça o que faz tão bem, favorecendo a nossa colheita?
Por fim, em Ap. 21:4 diz o texto: “E lhes enxugará dos olhos toda lágrima, e a morte já não existirá, já não haverá luto, nem pranto, nem dor, porque as primeiras coisas passaram.”
Aqui cabe uma confidência: que Deus me perdoe, mas acho que sentirei falta de algumas daquelas da esperança, as boas lágrimas que derramei na presença de Deus em oração e adoração. A minha inquietude me trará a certeza que ainda foram poucas, e a curiosidade me fará pensar no que poderá ser tão bom a ponto de Deus prometer secá-las.
Enquanto isso, Senhor, peço que lembre-te de nós, da Tua misericórdia, e restaura o Teu povo. Seca nossos olhos das lágrimas da dor e das lágrimas vazias, mas permita aquelas que surgirão quando fizerdes de nós almas que anelam pela Tua presença e pela Tua aliança mais e mais a cada dia. E que surjam no trânsito, nas ruas, nas casas e nos cultos; não nos envergonharemos delas. São minúsculos jorros do rio de vida, vindo de Ti mesmo, que fluem em nós.
E aqui, Pai, vai mais uma.
Milton Furtado, membro da IPI Central de Brasília,
e vocalista da Banda SUPERNOVAVIDA (www.supernovavida.com.br).

19 novembro 2006

Prova de fé

O mundo não era digno deles!
Hebreus 11. 38

O que prova a fé de alguém? Se fizéssemos essa pergunta às igrejas de nossos dias teríamos, certamente, respostas as mais diversas. Na enorme diversidade das igrejas dos nossos dias, encontraríamos pessoas que, firmadas em suas diferentes crenças, definiram provas diferentes da fé dos cristãos.
A programação televisa cristã, especialmente forte aos sábados pela manhã, dá prova disso. São igrejas de matizes e teologias distintas defendendo conceitos absolutamente diferentes uns dos outros do que seja a fé e de como ela se prova.
Estava pensando nisso hoje ao refletir sobre o conhecido texto de Hebreus 11. Aquela galeria de homens dos quais o mundo não era digno. Ao ler essa lista de pessoas que descobriram que a fé é a certeza de que vamos receber as coisas que esperamos e a prova de que existem coisas que não podemos ver (Hb. 11. 1) e que, descobrindo essa fé, acharam a salvação, me perguntei que provas elas obtiveram de sua fé. E que resultados visíveis elas tiveram.
Comecei a me questionar isso porque, a julgar pelo que pregam alguns hoje em dia, a fé se traduz em resultados visíveis, sempre. É uma cura, uma libertação, a prosperidade material. A fé se manifesta quando eu deixo de ser o caso perdido que eu era e encontro uma saída. A fé, nessa teologia, precisa de prova.
Não precisamos olhar com atenção aprofundada o texto para descobrir que essas idéias não se sustentam. A fé diz respeito a saber da existência de coisas que não podem ser vistas ou tocadas. Fundamentalmente é isso. É viver como quem vê um Deus que é invisível, como quem vive uma salvação que é improvável, como quem experimenta uma qualidade de vida impossível.
Boa parte de nossa geração de cristãos busca sinais. Busca resultados. Busca uma prova de fé. Milagres acontecem em resposta a nossa fé, mas a fé não é uma chave automática para milagres. A vontade de Deus é. Sua Glória e Sua Majestade são. Os milagres acontecem para honrar a Deus e não a nossa fé.
E eles acontecem. É só olhar a primeira parte do capítulo 11 de Hebreus para ver isso com clareza. Ou olhar para a minha e a sua vida. Temos muitos milagres para partilhar. Pela fé eles lutaram contra nações inteiras e venceram. Fizeram o que era correto e receberam o que Deus lhes havia prometido. Fecharam a boca de leões, apagaram incêndios terríveis e escaparam de serem mortos à espada. Eram fracos, mas se tornaram fortes. Foram poderosos na guerra e venceram exércitos estrangeiros. Pela fé mulheres receberam de volta os seus mortos, que ressuscitaram (Hb. 11. 32 – 35).
O equívoco está em acreditar que milagres são as únicas conseqüências possíveis para a fé. O mesmo texto aponta o equívoco. Enquanto alguns foram libertados e viram tremendos milagres, outros foram torturados até a morte; eles recusaram ser postos em liberdade a fim de ressuscitar para uma vida melhor. Alguns foram insultados e surrados; e outros, acorrentados e jogados na cadeia. Outros foram mortos a pedradas; outros serrados pelo meio; e outros, mortos à espada. Andaram de um lado para outro vestidos de peles de ovelhas e de cabras; eram pobres, perseguidos e maltratados. Andaram como refugiados pelos desertos e montes, vivendo em cavernas e em buracos na terra. O mundo não era digno deles! (Hb. 11. 35 – 38). A história da igreja e do testemunho de Cristo nos diz que na maior parte das vezes a fidelidade ao Senhor teve como resultado, não o milagre e a libertação do crente, mas a tortura, o sofrimento, a perseguição e a morte.
Jesus venceu, não descendo da cruz, mas morrendo na cruz. Por isso, eu penso que é muito fácil para mim afirmar a minha fé quando eu estou com minhas dívidas pagas em dia ou quando eu passo em um concurso da Petrobras, ou quando recebo o milagre de uma cura e, por isso, agradeço, feliz, ao meu Deus. Mas sei que minha fé seria, de verdade, provada, se uma arma fosse posta em minha cabeça sob a ameaça de morte, caso não renegue a minha fé em Jesus. Ou quando eu fosse desafiado a crer, ainda que não tivesse um teto ou comida para comer. Enquanto estava no Rio vi uma fé dessas: um homem se preparava para dormir sob uma marquise da avenida Presidente Vargas, lendo sua Bíblia apoiado na luz de uma agência bancária. Essa é a verdadeira prova de fé, pela qual ainda não passei.

11 novembro 2006

Crer e observar

Crer e observar
“Não confiaram nele, nem lhe obedeceram...”
(Deuteronômio 9.23).

O hino 439 dos Salmos e Hinos tem o seguinte refrão: “Crer e observar/ tudo quanto ordenar/ o fiel obedece/ ao que Cristo mandar”. Esta é a versão para o português, feita pelo Rev. Salomão Luís Ginsburg, do hino originalmente escrito em inglês “trust and obey” (confiar e obedecer).
Este é um dos muitos hinos que trago na memória! Cresci ouvindo minha mãe cantarolar este e outros hinos durante as lides domésticas. Muitas vezes sou surpreendido cantarolando ou apenas assoviando alguns destes hinos que fazem parte da minha história de fé.
O hino “crer e observar” em particular, traz-nos uma explanação simples e clara para a vida cristã. A expressão “confiar e obedecer” foi usada em uma reunião de testemunhos, logo depois de uma cruzada evangelística realizada pelo evangelista Dwight Moody, em Brockton, Massachusetts.
Um jovem levantou-se para dar seu testemunho, e foi logo deixando claro que conhecia muito pouco das doutrinas cristãs. Ele então terminou seu testemunho com esta pérola: “eu não sei muito ainda – mas decidi confiar, e decidi obedecer”.
Daniel Towner, que estava naquela reunião, ouvindo aquele testemunho, foi inspirado a escrever a letra do hino e, mais tarde, a apresentou a John Sammis, que trabalhou na melodia.
O verso de Deuteronômio no início dessa meditação é uma exortação direta e firme do Senhor, através de Moisés, aos filhos de Israel. Ele diz: “Mas vocês se rebelaram contra a ordem do Senhor, o seu Deus. Não confiaram nele, nem lhe obedeceram. Vocês têm sido rebeldes contra o Senhor desde que os conheço”.
A falha em confiar e obedecer está na raiz de todo comportamento pecaminoso, assim como a prática de confiar e obedecer está na raiz de toda vida de santidade.
Que hoje possamos, todos nós, renovar o nosso propósito de confiar e obedecer (crer e observar) em Jesus e na Sua Palavra!
Que o Senhor nos abençoe!

Rev. Ézio Lima

10 novembro 2006

Dia do Senhor, Dia de Celebração!


Muitos questionamentos se reportam ao uso correto do Dia do Senhor, e inúmeros cristãos mostram-se confusos a respeito deste assunto. Perante tais indagações faz-se necessário considerar alguns fatores relevantes para a compreensão desse tema. Primeiramente, o termo tb;v' (shābāt) na Bíblia não significa “sábado”, um dia da semana, mas um dia de descanso do trabalho. No Antigo Testamento o ano iniciava-se em um dia de “sabbath”, conforme Lv 23.4-16. Assim, o calendário tinha de ser ajustado regularmente para acrescentar ao ano “sabbaths” extras, em virtude das datas fixas (Ex 12.1-28; Lv 23.15). Somente depois do ajuste definitivo do calendário judaico, em 359 d.C, que os “sabbaths” dos judeus passaram a cair sempre no dia que agora denominamos de “sábado”. Portanto, é um erro identificar “sabbath” com o dia de sábado. Durante toda a história da igreja, o domingo tem sido observado como o “sabbath” dos cristãos. Foi no primeiro dia da semana que Cristo ressuscitou dentre os mortos (Jo 20.1-18), apareceu aos discípulos (Jo 20.19,26) e derramou o seu Espírito no Pentecostes, celebrado no primeiro dia da semana (At 2.1). Os apóstolos distinguiam o este dia como um dia especial para a reunião e celebração do povo de Deus (At. 20.7). Assim, a Igreja Cristã, por unanimidade, escolheu o domingo como o dia reservado para o culto dos cristãos que se reúnem a fim de dar graças e reencontrar-se com a alegria, a paz e o poder necessário à sua missão no mundo. Quem por alguma razão não pode observar o dia de domingo, pode escolher outro dia. O importante é ter um dia em sete, reservado para o descanso e santificação a Deus. O Dia do Senhor não deve ser observado com ociosidade, não é um momento de inatividade onde permitimos que lixos televisivos adentrem nossos lares, ou de mero lazer e sono. O Dia do Senhor deve ser um tempo de reflexão, consagração, renovação de propósitos e, principalmente, um dia de adoração a Deus. Celebrar o Dia do Senhor é, portanto, reconhecer seu senhorio não apenas sobre um determinado dia, mas depositar em suas mãos todos os dias da semana. Viver o dia de descanso sem exaltar a Deus é fazer do mesmo um dia comum. O Dia do Senhor sem devoção e piedade, sem consagração, oração e adoração perde seu significado e santidade. “Este é o dia que o Senhor fez; regozijemo-nos e alegremo-nos nele.” (Sl. 118:24).

Sonia Carniato Gonçalves
Bacharel em Teologia pelo Seminário Presbiteriano de Goiania,
e membro da Primeira Igreja Presbiteriana Independente do DF.

09 novembro 2006

Creio em Avivamentos


Minha confissão: creio em avivamentos. Creio que Deus se manifesta com sua presença incomum em tempos de escassez e crise. Creio que o Espírito Santo pode fazer triunfar os que antes caminhavam em derrota. Creio que uma igreja fadigada e em declínio pode viver momentos de profunda renovação. Creio que pastores num processo de desistência podem ser novamente restaurados para um ministério frutífero. Creio que crentes desanimados e descomprometidos podem ser abruptamente tomados por consciência e reconhecimento de pecados. Creio que podem viver experiências espirituais que mudem radical e irreversivelmente suas concepções sobre a vida espiritual. Creio que um crente renovado, um pastor inflamado pela presença e poder do Espírito e uma igreja avivada, podem “perturbar” uma cidade. Creio em despertamentos. Creio que se Deus tem algo a realizar na terra usará seu povo. Se usará seu povo, tratará com ele. E o levará a se humilhar no pó, a orar com lágrimas, a buscar sua face e não suas mãos, a reconhecer seus caminhos tortuosos e fazer “caminhos retos para os pés...” (Hb. 12.13). Creio que o avivamento incendiará a igreja, e a igreja será instrumento para despertar o bairro, a cidade e a nação. Mas, por que afirmo minha crença em avivamentos? Porque os saduceus modernos continuam à espreita. Porque existem aqueles que não crêem na ressurreição. Ressurreição é avivamento. Existem os que zombam dos que partilham de uma expectativa de que o estado de apatia mórbida pode ser, por obra da graça, revertido em vida. Robert Coleman diz que a palavra avivamento “no Novo Testamento significa ressuscitar”. Assim como Cristo morreu e ressurgiu (Rm. 14.9); e o filho mais moço do pai amoroso “estava morto e reviveu” (Lc. 15. 24 e 32). Afirmo minha crença em avivamentos porque “os saduceus, que dizem não haver ressurreição” (Mc. 12. 18) querem ofuscar o brilho da expectativa e confundir a firmeza dessa esperança. É afirmar em repetição a declaração do Senhor: “Ora, ele não é Deus de mortos, e sim de vivos” (Mc. 12. 27). Creio no Deus dos avivamentos.

por Rev. Jean Douglas Gonçalves